Quando o Signal não dá conta

Apesar deste texto ter como foco o Signal, por ser o mensageiro preferido por muitas pessoas anarquistas nos EUA e na Europa, que é a “audiência” original do texto, gostaríamos de ressaltar que a crítica levantada aqui serve, de modo geral, para qualquer aplicativo de mensagem instantânea (MI), como zap, telegram, wire, etc. Em outra postagem, destacou-se problemas comuns de organização com o uso do zap. De novo, achamos que aqueles problemas não se aplicam apenas ao zap.

Dá pra destacar dois pontos aqui: 1) entenda primeiro suas necessidades e depois busque uma forma de comunicação que melhor dê conta delas; e 2) soluções técnicas raramente são soluções para problemas sociais. Dedique tempo para aprender a se comunicar e a decidir em grupo. Sem isso, de pouca serventia serão as (pequenas) escolhas políticas embutidas no projeto dos aplicativos.

(texto do blog SaltaMontes.noblogs.org)


Tradução do texto Signal Fails, escrito por Northshore Counter Info, em junho de 2019.


Discussão crítica sobre o uso do aplicativo Signal em círculos autônomos e anarquistas.

O Signal é um serviço de mensagens criptografadas que existe em diferentes formas há cerca de 10 anos. Desde então, tenho visto o software ser amplamente adotado por redes anarquistas no Canadá e nos Estados Unidos. Cada vez mais, para melhor e pior, nossas conversas interpessoais e em grupo passaram para a plataforma do Signal, na medida em que se tornou a maneira dominante pela qual anarquistas se comunicam neste continente, com muito pouco debate público sobre as implicações.

O Signal é apenas um aplicativo para espertofone. A mudança real de paradigma que está acontecendo é para uma vida cada vez mais mediada por telas de espertofones e mídias sociais. Levou apenas alguns anos para que os espertofones se tornassem obrigatórios para quem quer amigos ou precisa de trabalho, fora alguns bolsos perdidos. Até recentemente, a subcultura anarquista era um desses bolsos, onde você poderia se recusar a carregar um espertofone e ainda existir socialmente. Agora tenho menos certeza, e isso é deprimente. Então, vou teimosamente insistir ao longo deste texto que não há substituto para as relações face a face do mundo real, com toda a riqueza e complexidade da linguagem corporal, emoção e contexto físico, e elas continuam a ser a maneira mais segura de ter uma conversa privada. Então, por favor, vamos deixar nossos telefones em casa, nos encontrar em uma rua ou floresta, conspirar juntos, fazer música, construir alguma merda, quebrar alguma merda e nutrir a vida off-line juntos. Acho que isso é muito mais importante do que usar o Signal corretamente.

A ideia desse zine surgiu há um ano, quando eu estava visitando amigos em outra cidade e brincando sobre como as conversas do Signal lá onde moro viraram grandes tretas. Os padrões foram imediatamente reconhecidos e passei a perceber que essa conversa estava acontecendo em muitos lugares. Quando comecei a perguntar, todos tinham reclamações e opiniões, mas muito poucas práticas compartilhadas haviam surgido. Então, fiz uma lista de perguntas e botei-as para circular. Fiquei agradavelmente surpreso ao receber mais de uma dúzia de respostas detalhadas, que, combinadas com várias conversas informais, são a base para a maior parte deste texto (1).

Não sou especialista – não estudei criptografia e não sei programar. Sou um anarquista com interesse em segurança holística e um cético com relação à tecnologia. Meu objetivo com este artigo é refletir sobre como o Signal se tornou tão central na comunicação anarquista em nosso contexto, avaliar as implicações em nossa segurança coletiva e organização social e lançar algumas propostas preliminares para o desenvolvimento de práticas compartilhadas.

Uma breve história do Signal

Há 25 anos, aqueles entre nós que eram otimistas com a tecnologia viram um enorme potencial na Internet que surgia: ela seria uma ferramenta libertadora. Lembra daquele velho segmento da CBC que elogiou “uma rede de computadores chamada Internet” como “anarquia modulada?” E embora ainda existam formas poderosas de se comunicar, coordenar e disseminar ideias online com segurança, fica claro que as entidades estatais e corporativas estão gradualmente capturando cada vez mais o espaço online e usando-o para nos sujeitar a formas cada vez mais intensas de vigilância e controle social. (2)

A internet sempre foi uma corrida armamentista. Em 1991, o criptógrafo, libertário e ativista da paz (3) Phil Zimmerman criou o Pretty Good Privacy (PGP), um aplicativo de código aberto para criptografia de arquivos e criptografia de ponta a ponta para e-mail. Estou evitando detalhes técnicos, mas basicamente a importância de ser de ponta a ponta é que você pode se comunicar de forma segura diretamente com outra pessoa, e seu serviço de e-mail não pode ver a mensagem, seja o Google ou o Riseup. Até hoje, até onde sabemos, a criptografia PGP nunca foi quebrada (4).

Durante anos, técnicos e nerds de segurança em certos círculos – anarquistas, jornalistas, criminosos, etc. – tentaram espalhar o PGP para suas redes como uma espécie de infraestrutura de comunicações seguras, com algum sucesso. Como em tudo, havia limitações. Minha maior preocupação de segurança (5) com o PGP é a falta de Sigilo Direto, o que significa que, se uma chave de criptografia privada for comprometida, todos os e-mails enviados com essa chave poderão ser descriptografados por um invasor. Esta é uma preocupação real, dado que a NSA quase certamente está armazenando todos os seus e-mails criptografados em algum lugar, e um dia computadores quânticos poderão ser capazes de quebrar o PGP. Não me pergunte como funcionam os computadores quânticos – até onde sei, é pura mágica do mal.

O grande problema social com o PGP, um dos que mais influenciaram o projeto Signal, é o fato de que nunca foi amplamente adotado fora de um pequeno nicho. Na minha experiência, foi até difícil trazer anarquistas para o PGP e fazê-los usá-lo apropriadamente. Houve oficinas, muitas pessoas foram instruídas, mas assim que um computador caiu ou uma senha foi perdida, tudo voltava à estaca zero. Simplesmente não colou.

Por volta de 2010, os espertofones começaram a se popularizar e tudo mudou. A onipresença das mídias sociais, as mensagens instantâneas constantes e a capacidade das empresas de telecomunicações (e, portanto, do governo) de rastrear todos os movimentos dos usuários (6) transformaram completamente o modelo de ameaças. Todo o trabalho que as pessoas dedicam à segurança de computadores teve que voltar décadas para trás: os espertofones contam com uma arquitetura completamente diferente dos PCs, resultando em muito menos controle do usuário, e o advento de permissões de aplicativos completamente livres tornou quase ridícula a ideia de privacidade dos espertofones.

Este é o contexto em que o Signal apareceu. O anarquista ‘cypherpunk’ Moxie Marlinspike começou a trabalhar num software para levar criptografia de ponta a ponta para smartphones, com a propriedade de Segredo Futuro, trabalhando na ideia de que a vigilância em massa deveria ser combatida com criptografia em massa. O signal foi projetado para ser utilizável, bonito e seguro. Moxie concordou em juntar-se aos gigantes da tecnologia WhatsApp, Facebook, Google e Skype para implementar o protocolo de criptografia do Signal em suas plataformas também.

“É uma grande vitória para nós quando um bilhão de pessoas estão usando o WhatsApp e nem sequer sabem que ele está criptografado”- Moxie Marlinspike

Compreensivelmente, os anarquistas são mais propensos a confiar suas comunicações ao Signal – uma fundação sem fins lucrativos dirigida por um anarquista – do que a confiar numa grande empresa de tecnologia, cujo principal modelo de negócio é colher e revender dados de usuários. E o Signal tem algumas vantagens sobre essas outras plataformas: é de código aberto (e, portanto, sujeito a revisão por pares), criptografa a maioria dos metadados, armazena o mínimo possível de dados do usuário e oferece alguns recursos úteis, como o desaparecimento de mensagens e a verificação do número de segurança para proteger contra intercepções.

O Signal conquistou elogios quase universais de especialistas em segurança, incluindo endossos do delator da NSA, Edward Snowden, e as melhores pontuações da respeitada Electronic Frontier Foundation. Em 2014, documentos vazados da NSA descreveram o Signal como uma “grande ameaça” à sua missão (de saber tudo sobre todos). Pessoalmente, confio na criptografia.

Mas o Signal realmente protege apenas uma coisa, e essa coisa é a sua comunicação enquanto viaja entre o seu dispositivo e outro dispositivo. Isso é ótimo, mas é apenas uma parte de uma estratégia de segurança. É por isso que é importante, quando falamos de segurança, começar com um Modelo de Ameaças. As primeiras perguntas para qualquer estratégia de segurança são quem é o seu adversário esperado, o que ele está tentando capturar e como é provável que o faça. A ideia básica é que as coisas e práticas são apenas seguras ou inseguras em relação ao tipo de ataque que você está esperando se defender. Por exemplo, você pode ter seus dados fechados com criptografia sólida e a melhor senha, mas se o invasor estiver disposto a torturá-lo até que você entregue os dados, tudo aquilo realmente não importa.

Para o propósito deste texto, eu proporia um modelo de ameaças de trabalho que se preocupa principalmente com dois tipos de adversários. O primeiro é agências de inteligência globais ou hackers poderosos que se envolvem em vigilância em massa e interceptam comunicações. A segunda são as agências policiais, operando em território controlado pelo governo canadense ou estadunidense, engajados numa vigilância direcionada a anarquistas. Para a polícia, as técnicas básicas de investigação incluem monitoramento de listas de e-mail e mídias sociais, envio de policiais à paisana (p2) para eventos e informantes casuais. Às vezes, quando eles têm mais recursos, ou nossas redes se tornam uma prioridade maior, eles recorrem a técnicas mais avançadas, incluindo infiltração de longo prazo, vigilância física frequente ou contínua (incluindo tentativas de capturar senhas), escuta de dispositivos, interceptação de comunicações e invasões domésticas, onde os dispositivos são apreendidos e submetidos a análise forense.

Devo salientar que muitas jurisdições europeias estão implementando leis de quebra de sigilo importantes que obrigam legalmente os indivíduos a dar suas senhas às autoridades sob certas condições ou ir pra cadeia (7). Talvez seja apenas uma questão de tempo, mas, por enquanto, no Canadá e nos EUA, não somos legalmente obrigados a divulgar senhas para as autoridades, com a notável exceção de quando estamos atravessando a fronteira (8).

Se o seu dispositivo estiver comprometido com um gravador de digitação (keylogger) ou outro software malicioso, não importa quão seguras sejam as suas comunicações. Se você está saindo com um informante ou policial, não importa se você tira a bateria do telefone e fala em um parque. Cultura de segurança e segurança de dispositivos são dois conceitos não cobertos por este texto mas que devem ser considerados para nos proteger contra essas ameaças muito reais. Incluí algumas sugestões na seção Leitura Adicional.

Também vale mencionar que o Signal não foi projetado para anonimato. Sua conta do Signal é registrada com um número de telefone, portanto, a menos que você se registre usando um telefone descartável comprado em dinheiro ou um número descartável on-line, você não está anônimo. Se você perder o controle do número de telefone usado para registrar sua conta, outra pessoa poderá roubar sua conta. É por isso que é muito importante, se você usar um número anônimo para registrar sua conta, ativar o recurso “bloqueio de registro”.

Principalmente por razões de segurança, o Signal se tornou o meio de comunicação padrão nos círculos anarquistas nos últimos 4 anos, ofuscando todo o resto. Mas assim como “o meio é a mensagem”, o Signal está tendo efeitos profundos sobre como os anarquistas se relacionam e se organizam, que muitas vezes são negligenciados.

O lado social do Signal

“O Signal é útil na medida em que substitui formas menos seguras de comunicação eletrônica, mas se torna prejudicial… quando substitui a comunicação face a face”. Participante da minha pesquisa

A maioria das implicações sociais do Signal não tem a ver especificamente com o aplicativo. São as implicações de mover cada vez mais nossas comunicações, expressão pessoal, esforços de organização e tudo o mais para plataformas virtuais e mediá-las com telas. Mas algo que me ocorreu quando comecei a analisar as respostas aos questionários que enviei é que, antes do Signal, conheci várias pessoas que rejeitaram os espertofones por razões de segurança e sociais. Quando o Signal surgiu com respostas para a maioria das preocupações de segurança, a posição de recusa foi significativamente corroída. Hoje, a maioria das pessoas que querem estar fora tem espertofones, seja porque elas foram convencidas a usar o Signal ou ele se tornou efetivamente obrigatório se elas quisessem se continuar envolvidas. O Signal atuou como uma porta de entrada no mundo dos espertofones para alguns anarquistas.

Por outro lado, já que o Signal é uma redução de danos para aqueles de nós que já estamos presos em espertofones, isso é uma coisa boa. Fico feliz que as pessoas que estavam principalmente socializando e fazendo organização política em canais não criptografados como o Facebook, mudaram para o Signal. Na minha vida, o bate-papo em grupo substituiu a “pequena lista de e-mails” e é bastante útil para fazer planos com amigos ou compartilhar links. Nas respostas que coletei, os grupos de signal que eram mais valiosos para as pessoas, ou talvez os menos irritantes, eram os que eram pequenos, focados e pragmáticos. O Signal também pode ser uma ferramenta poderosa para divulgar de maneira rápida e segura um assunto urgente que requer uma resposta rápida. Se a organização baseada no Facebook levou muitos anarquistas a acreditar que a organização com qualquer elemento de surpresa é impossível, o Signal salvou parcialmente essa ideia, e sou grato por isso.

O Signal não dá conta

Inicialmente, imaginei este projeto como uma pequena série de vinhetas de quadrinhos que eu planejava chamar de “O Signal não Dá Conta”, vagamente inspirado no livro Come Hell ou High Water: Um Manual sobre Processo Coletivo cheio de percalços. Acontece que é difícil fazer desenhos interessantes representando as conversas do Signal e eu sou uma droga no desenho. Foi mal se eu prometi a alguém que, talvez na segunda edição … De qualquer forma, ainda quero incluir alguns desenhos de “O Signal não Dá Conta”, como uma maneira de tirar sarro de nós (e eu me incluo nisso!) E talvez para cutucar gentilmente todo mundo para que deixem de ser tão chatos.

  • Bond, James Bond: Ter Sinal não te torna intocável. Dê um pouco de criptografia a algumas pessoas e elas imediatamente aporrinharão toda a sua lista de contatos. Seu telefone ainda é um dispositivo de rastreamento e a confiança ainda é algo que se constroí. Converse com a sua galera sobre os tipos de coisas que vocês se sentem à vontade de falar ao telefone e o que não.
  • Silêncio não é consentimento: Você já foi numa reunião, fez planos com outros, montou um grupo de Signal para coordenar a logística, e então uma ou duas pessoas rapidamente mudaram os planos coletivos através de uma série rápida de mensagens que ninguém teve tempo de responder? Pois é, não é legal.
  • Uma reunião interminável é um inferno: um grupo de Signal não é uma reunião em andamento. Como já estou muito grudado ao meu telefone, não gosto quando um assunto está explodindo no chat do telefone e na real é apenas uma longa conversa entre duas pessoas ou o fluxo de consciência de alguém que não está relacionado com o propósito do grupo. Aprecio quando conversas têm começos e fins.
  • “Me dá mais!”: Esse é um que particularmente odeio. Provavelmente por causa do comportamento em redes sociais, alguns de nós estão acostumados a receber informações escolhidas para nós por uma plataforma. Porém, o Signal não é rede social, ainda bem! Então, fique ligado porque quando um grande grupo no Signal começa a se tornar um mural de notícias (feed), você está com problemas. Isso significa que, se você não estiver envolvido e prestando atenção, perderá todos os tipos de informações importantes, sejam eventos futuros, pessoas mudando seus pronomes ou conversas inflamadas que levam a rachas. As pessoas começam a esquecer que você existe e, eventualmente, você literalmente desaparece. Mate o FEED.
  • Incêndio num teatro lotado: também conhecido como o problema do botão de pânico. Você está de boa em um grande grupo do Signal com todos os seus pseudo amigos e todos os seus números de telefone reais, aí alguém é pego por tentar roubar numa loja ou algo assim, e ta-dan, o telefone daquela pessoa não é criptografado! Todo mundo se assusta e pula do navio, mas é tarde demais, porque se os policiais estão vistoriando esse telefone agora, eles podem ver todos que saíram e o mapeamento social está feito. Sinto muito.
  • História sem fim: Alguém criou um grupo no Signal para coordenar um evento específico que aconteceria uma vez só. Rolou, mas ninguém quer sair do grupo. De alguma forma, essa formação ad hoc muito específica é agora A ORGANIZAÇÃO PERMANENTE que se encarregou de decidir tudo sobre todas as coisas – indefinidamente.

Em busca de práticas compartilhadas

Se você achava que esse era um guia de boas práticas de Signal ou como se comportar num chat, foi mal ter te trazido tão longe sem ter deixado claro que não era. Esse texto é muito mais algo como “temos que falar sobre Signal”. Acredito de verdade no desenvolvimento de práticas compartilhadas dentro de contextos sociais específicos, e recomendo que comecemos tendo essa conversa de maneira explícita nas suas redes. Para isso, tenho algumas propostas.

Existem alguns obstáculos para a adoção de práticas compartilhadas. Algumas pessoas não possuem o Signal. Se isso acontece porque elas estão construindo relações sem espertofones, tudo que posso dizer é: elas têm o meu respeito. Se é porque elas passam o dia inteiro no Facebook, mas o Signal é “muito difícil”, aí é difícil de engolir. De resto, o Signal é fácil de instalar e de usar para qualquer pessoas que tenha um espertofone e uma conexão de internet.

Também discordo da perspectiva orwelliana que vê a criptografia como inútil: “A polícia já sabe de tudo!” É muito desempoderador pensar o governo dessa forma, e felizmente isso não é verdade – resistir ainda não é infrutífero. As agências de segurança possuem capacidade fodásticas, incluindo algumas que a gente nem sabe ainda. Mas existe ampla evidência de que a criptografia vem frustrado investigações policiais e é por isso que o governo está passando leis que impeçam o uso dessas ferramentas.

Talvez o maior obstáculo para as práticas compartilhadas é a falta generalizada de um “nós” – em que medida temos responsabilidades com alguém, e se temos, com quem? Como estamos construindo eticamente normas sociais compartilhadas? A maioria das anarquistas concordam que é errado dedurar, por exemplo, mas como podemos chegar lá? Eu realmente acredito que um tipo de individualismo liberal barato está influenciando o anarquismo e tornando a própria questão das “expectativas” quase um tabu de ser discutido. Mas esse seria um texto para outro dia.

Algumas propostas de Boas Práticas

  1. Mantenha as coisas no mundo real – como uma pessoa disse, “a comunicação não apenas compartilhar informação.” A comunicação cara a cara constrói relações completas, incluindo confiança, e continua sendo a forma mais seguras de se comunicar.
  2. Deixe os seus aparelhos em casa – quem sabe às vezes? Especialmente se você vai atravessar a fronteira, onde podem te forçar a descriptografar seus dados. Se você vai precisar de um telefone durante uma viagem, compre um telefone de viagem com suas amizades que não tenha nenhuma informação sensível nele, como sua lista de contatos.
  3. Torne seus aparelhos seguros – a maioria dos aparelhos (telefones e computadores) já possuem a opção de criptografia total de disco. A criptografia é tão boa quanto a sua senha e protege seus dados “em descanso”, ou seja, quando ele está desligado ou os dados não estão sendo usados por algum programa. O bloqueio de tela fornece alguma proteção enquanto seu aparelho está ligado, mas pode ser desviada por um atacante sofisticado. Alguns sistemas operacionais obrigam a usar a mesma senha para a criptografia de disco e para o bloqueio de tela, o que é uma pena pois não é prático escrever uma senha longa 25 vezes por dia (às vezes na presença do zóião ou de câmeras de vigilância).
  4. Desligue seus aparelhos – se você não está de olho neles, ou se for dormir, desligue-os. Compre um despertador barato. Caso sua casa seja invadida pela polícia durante a noite, você ficará bem feliz de ter feito isso. Quando o aparelho está desligado e criptografado com uma senha forte quando for apreendido, a polícia terá muito menos chances de “quebrá-lo”.  Caso você queira ir ainda mais longe, compre um bom cofre e tranque seus aparelhos lá dentro quando não estiver usando-os. Isso reduzirá o risco de que eles sejam adulterados fisicamente sem que você perceba.
  5. Estabeleça limites – temos noções diferentes sobre o que é seguro falar no telefone e o que não é. Discuta e crie limites coletivos sobre isso, e onde houver desacordo, respeite os limites das pessoas mesmo se você acha que está seguro.
  6. Combine um sistema de entrada no grupo – se você está discutindo assuntos sensíveis no coletivo, crie uma compreensão coletiva sobre o que seria um sistema de entrada de novas pessoas. Numa época em que anarquistas são acusados de conspiração, a falta de comunicação sobre isso pode mandar pessoas para a cadeia.
  7. Pergunte primeiro – se você vai adicionar alguém num assunto, fazendo assim com que os números de telefone do grupo todo sejam revelados, antes de tudo peça o consentimento do grupo.
  8. Minimize as tomadas de decisão online – considere deixar as decisões que não sejam de sim/não para reuniões presenciais, se possível. Pela minha experiência. o Signal empobrece os processos de tomada de decisão.
  9. Objetivo definido – idealmente, um grupo no Signal tem um objetivo específico. Cada pessoa que for adicionada a esse grupo deveria ser devidamente apresentada sobre esse objetivo. Caso ele seja alcançado, saia do grupo e delete-o.;
  10. Mensagens temporárias – isso é bem útil para manter a casa em ordem. Indo de 5 segundos a uma semana, as Mensagens Temporárias podem ser configuradas ao clicar no ícone do cronômetro na barra superior de uma conversa. Muitas pessoas usam o padrão de 1 semana para todas as suas mensagens, sejam as conversas sensíveis ou não. Escolha o tempo de expiração com base no seu modelo de ameaças. Isso também te protege, de alguma forma, caso a pessoa com que você está se comunicando esteja usando práticas de segurança fracas.
  11. Verifique os números de segurança – esta é a sua melhor proteção contra ataques de homem-no-meio. É bem simples e fácil de fazer isso ao vivo – abra sua conversa com a pessoa e vá até as Configurações da Conversa > Ver o número de segurança e escaneie o código QR ou compare os números. A maioria das pessoas que me responderam disseram que “eu deveria fazer isso, mas não faço”. Aproveita suas reuniões para verificar seus contatos. Tudo bem ser nerd!
  12. Habilite o Bloqueio de Registro -Habilite essa opção nas configurações de privacidade do Signal, para o caso de se alguém conseguir hackear seu número de telefone usado para registrar sua conta, ele ainda precisará obter seu PIN para roubar sua identidade. Isso é especialmente importante para contas do Signal anônimas registradas com números descartáveis, já que alguém certamente usará esse número novamente.
  13. Desativar a visualização de mensagens – Impeça que as mensagens apareçam na sua tela de bloqueio. No meu dispositivo, tive que definir isso nas configurações do dispositivo (não configurações do Signal) em Bloquear Preferências de tela> Ocultar conteúdo sensível.
  14. Excluir mensagens antigas – Seja ativando o número máximo mensagens por conversa ou excluindo manualmente as conversas concluídas, não guarde as mensagens que você não precisa mais.

Conclusão

Embarquei neste projeto para refletir e reunir feedbacks sobre o impacto que o Signal teve em redes anarquistas nos EUA e no Canadá, do ponto de vista da segurança e da organização social. Ao fazê-lo, acho que esbarrei com algumas frustrações comuns que as pessoas têm, especialmente com grandes grupos de Signal, e reuni algumas propostas para fazê-las circular. Continuo insistindo que os espertofones estão causando mais danos do que benefícios às nossas vidas e lutas. Digo isso porque elas são importantes para mim. Precisamos preservar e construir outras formas de nos organizar, especialmente offline, tanto para nossa qualidade de vida quanto para a segurança do movimento. Mesmo se continuarmos usando espertofones, é perigoso quando nossas comunicações são centralizadas. Se os servidores do Signal caírem hoje à noite, ou Riseup.net, ou Protonmail, imagine como isso seria devastador para nossas redes. Se anarquistas alguma vez representarem uma grande ameaça à ordem estabelecida, eles virão atrás de nós e de nossa infraestrutura sem piedade, inclusive suspendendo as ‘proteções legais’ das quais poderemos estar dependendo. Para melhor e pior, acredito que este cenário seja possível enquanto ainda estivermos vivos, e por isso devemos planejar pensando em resiliência.

A galera tech entre nós deve continuar a experimentar outros protocolos, softwares e sistemas operacionais, (9) compartilhando-os se forem úteis. Quem decidiu ficar fora deve continuar resistindo fora e encontrar maneiras de seguir lutando offline. Para o resto de nós, vamos minimizar o grau em que somos capturados pelos espertofones. Juntamente com a capacidade de lutar, devemos construir vidas que valham a pena, com uma qualidade de relacionamento que os potenciais amigos e co-conspiradores considerem irresistivelmente atraente. Pode ser a única esperança que temos.

Outras leituras

Este zine foi publicado em maio de 2019. O Signal atualiza periodicamente seus recursos. Para obter as informações mais atualizadas sobre assuntos técnicos, acesse signal.org, community.signalusers.org, e /r/signal no reddit.

Seu telefone é um policial
https://itsgoingdown.org/phone-cop-opsecinfosec-primer-dystopian-present/

Escolhendo a ferramenta apropriada para a tarefa
https://crimethinc.com/2017/03/21/choosing-the-proper-tool-for-the-task-assessing-your-encryption-options

Guias de ferramentas da EFF para autodefesa de vigilância (incluindo Signal)
https://ssd.eff.org/en/module-categories/tool-guides

Para uma cultura de segurança coletiva
https://crimethinc.com/2009/06/25/towards-a-collective-security-culture

Guia de segurança do Riseup
https://riseup.net/security

Grupo Principal de Conspiração do Toronto G20: as acusações e como elas surgiram
https://north-shore.info/archive/

Notas

  1. Muito obrigado a todos que me escreveram! Roubei muitas de suas ideias.
  2. Os modos de governança da era da Internet variam de lugar para lugar – Estados mais autoritários podem preferir filtragem e censura, enquanto Estados democráticos produzem uma espécie de “cidadania digital” – mas a vigilância em massa e a guerra cibernética estão se tornando a norma.
  3. Ironicamente, o governo dos EUA mais tarde tentou acusar Zimmerman de publicar livremente o código-fonte do PGP, argumentando que ele estava “exportando armas”. Então, ele publicou o código-fonte em livros de capa dura e enviou-os pelo mundo. O motivo é que a exportação de livros está protegida pela Constituição dos EUA.
  4. Processos judiciais contra as Brigadas Vermelhas na Itália (2003) e pornógrafos infantis nos EUA (2006) mostraram que as agências policiais federais não conseguiram entrar em dispositivos e comunicações protegidos por PGP. Em vez disso, os agentes recorreram a dispositivos de escuta, passando leis que exigiam que você entregasse senhas e, é claro, informantes.
  5. Até muito recentemente, o PGP não criptografava os metadados (quem está enviando e-mail para quem, em que servidores, a que horas), o que era um grande problema. Um advogado da NSA disse uma vez: “se você tem metadados suficientes, você realmente não precisa do conteúdo”.
  6. Quer ler algo assustador? Procure o Sensorvault da Google.
  7. Negação plausível, sigilo antecipado e destruição segura de dados são projetados em algumas ferramentas de privacidade para tentar conter essa ameaça ou pelo menos minimizar seus danos.
  8. As impressões digitais (e outros dados biométricos) não são consideradas senhas em muitas jurisdições, o que significa que as impressões digitais não estão sujeitas às mesmas proteções legais.
  9. No meu telefone, recentemente substituí o Android pelo LineageOS, que é um sistema operacional desgooglezado, direcionado para a privacidade, baseado no código Android. Ele é ótimo, mas é feito apenas para determinados dispositivos, você anula a garantia do telefone e definitivamente há uma curva de aprendizado quando se trata de configurá-lo, mantê-lo atualizado e mudar para um software de código aberto.

Entre em contato com o autor através de signalfails [em] riseup [ponto] net

Oficina sobre criptografia de email, dia 15/10

No dia 15/10, às 19h daremos uma oficina sobre criptografia com GPG, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) da UFSC, sala 330.

Veremos como funciona a internet, a criptografia assimétrica com par de chaves, criptografia de ponta a ponta, e por fim, como mandar e receber um email criptografado!

Traga seu computador!

Limitações das VPNs

O texto abaixo foi extraído da página de Ajuda do Riseup e nos parece importante pois nos lembra até onde vai esta solução técnica.

Recomendamos que se tenha sempre em mente os limites da opção tecnológica que você usa. Já escrevemos um pouco sobre o Signal. Quem sabe, mais pra frente, falamos sobre Tor, Linux, Lineage, etc.

Acima de tudo, esteja cara a cara com as pessoas.


A Riseup VPN tem limitações comuns a todas as VPNs pessoais:

  • Legalidade: Se você vive em um Estado não democrático, pode ser ilegal usar uma VPN pessoal para acessar a internet.
  • Localização: Usar uma VPN em um dispositivo móvel resguardaria a sua conexão de dados, mas a companhia telefônica ainda poderia determinar a sua localização, registrando quais torres se comunicam com o seu dispositivo.
  • Dispositivos seguros: Uma VPN ajuda a proteger as suas informações enquanto transitam pela internet, mas não enquanto estão armazenadas no seu computador ou em um servidor remoto.
  • Conexões inseguras são sempre inseguras: Embora a Riseup VPN torne anônima a sua localização e proteja você da vigilância do seu provedor, depois que seus dados forem roteados em segurança por riseup.net, eles seguirão pela internet normalmente. Portanto, ainda se deve usar conexões seguras (TLS), quando disponíveis (isto é, prefira HTTPS a HTTP, IMAPS a IMAP, etc.).
  • VPNs não são remédio para tudo: Embora deem conta de muita coisa, as VPNs não resolvem tudo. Por exemplo, não aumentam a sua segurança se o seu computador já estiver infectado por vírus ou programas espiões. Se você passar informações pessoais a um site, a VPN poderá fazer muito pouco para manter seu anonimato diante dele e das páginas parceiras. Saiba como manter o anonimato com VPNs.
  • A internet pode ficar mais lenta: A Riseup VPN roteia todo o seu tráfego por uma conexão criptografada a riseup.net antes que ele siga para a internet normal. Esse passo extra pode deixar a transferência de dados mais lenta. Para reduzir a lentidão, escolha, se possível, um servidor de VPN localizado próximo a onde você vive.
  • VPNs podem ser difíceis de configurar: Ainda que tenhamos tomado providências para facilitar ao máximo o processo, qualquer VPN complica um pouco a configuração da sua rede.

Apresentação e Roda de Conversa sobre Segurança de Pés de Descalços na CryptoRave 2019

Neste sábado, das 12:40 às 13:30 do dia 04 de Maio vai acontecer na CryptoRave uma Roda de Conversa sobre a Segurança de Pés de Descalços. Acreditamos que será um espaço importante para contextualizar melhor esta proposta, bem como debater sobre uma visão estratégica para promover uma Cultura de Segurança. Venha e participe!

Este ano a CryptoRave acontecerá na Biblioteca Mário de Andrade, pertinho do Metrô Anhangabaú (linha vermelha), em São Paulo Capital.

A programação completa do evento pode ser vista em: https://cpa.cryptorave.org/en/cr2019/events/388

nano-CryptoFesta do Tarrafa em Floripa e CriptoFunk no Rio De Janeiro!

Dia 23/11: nano-CryptoFesta Tarrafa Edition, Florianópolis – SC

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Acontece nessa sexta no Tarrafa Hackerclube a nano-Crypto Festa. Com inicio às 18h, o evento vai contar a apresentação do Data Detox, conversa sobre conceitos básicos de comunicação segura e a exibição de dois curtas seguido de debate. Além disso, durante todo o evento estará rolando a instalação de aplicativos de comunicação mais segura como Briar e Signal e de sistemas operacionais Linux.

 

Dia 24/11: CriptoFunk, Rio de Janeiro

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A Criptofunk acontece no dia 24 de novembro, no Complexo da Maré (Galpão Bela Maré), com atividades sobre segurança integral (digital, física e psicossocial), privacidade, violência online, criptografia, resistência, liberdade na rede e funk!

Essa é a 1ª edição do evento no Rio de Janeiro! Inspirada no movimento internacional das CryptoParties, a CripoFunk é um esforço coletivo para difundir os conceitos fundamentais de privacidade e liberdade na Internet e ampliar a adoção de práticas e ferramentas de cuidados digitais.

Seguindo a tradição da CryptoRave, que acontece em São Paulo, ao final dos debates e atividades, uma grande festa encerra o evento. A participação nas atividades é aberta mediante inscrição gratuita. A programação completa será divulgada em breve nas redes do evento no twitter e facebook.

Link para inscrição: https://tinyurl.com/criptofunk
Link do evento: https://www.facebook.com/events/277096262921177/

https://scontent.fhrk1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/45593458_2166430743580777_2615454960925540352_n.jpg?_nc_cat=107&_nc_ht=scontent.fhrk1-1.fna&oh=8a3b48905b529761bbb97a9f9f7a05e4&oe=5C7EB862

A abrangência do SISBIN

Trecho do relatório Vigilância das Comunicações pelo Estado Brasileiro.

 

VIGILÂNCIA SEM TRANSPARÊNCIA PARA FINS DE INTELIGÊNCIA E SEGURANÇA NACIONAL

A Lei nº 9.883/99 instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), que integra ações de planejamento e execução de tarefas de inteligência no Brasil, com a finalidade de fornecer à Presidência da República subsídios nos assuntos de interesse nacional, pela obtenção, análise e disseminação de conhecimentos relevantes à ação e processo decisório governamentais e garantia da segurança da sociedade e do Estado (art. 1º). Compõem o Sisbin todos os órgãos da Administração Pública Federal que produzem conhecimentos de interesse das atividades de inteligência (art. 2º), especificadas no art. 4º do Decreto nº 4.376/02, entre eles a Casa Civil e o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, Ministérios da Justiça, da Defesa, das Relações Exteriores, da Saúde, da Fazenda, da Ciência e Tecnologia, entre outros, e órgãos a eles relacionados como a Polícia Federal, o Departamento Penitenciário Nacional, o Departamento de Cooperação Jurídica Internacional, a Receita Federal e o Banco Central. Órgão central constitui a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), a quem compete planejar, executar, supervisionar e controlar as atividades de inteligência.

A ABIN pode ter acesso a dados obtidos por outras autoridades por meio da Sisbin. O art. 6, inciso V do Decreto 4.376/02, que regulamentou o funcionamento do Sisbin, dispõe que cabe aos órgãos desse sistema intercambiar e fornecer informações necessárias à produção de conhecimentos para as atividades de inteligência. O art. 6-A do mesmo Decreto, incluído em 2008, previu que a ABIN poderá ter representantes de órgãos do Sisbin junto a seu Departamento de Integração do Sisbin, os quais “poderão acessar, por meio eletrônico, as bases de dados de seus órgãos de origem, respeitadas as normas e limites de cada instituição e as normas legais pertinentes à segurança, ao sigilo profissional e à salvaguarda de assuntos sigilosos” (§ 4º). Com isso, é possível à ABIN ter acesso a informações e dados a princípio protegidas pelo sigilo das comunicações, o que amplia as possibilidades de vigilância do Estado brasileiro. A despeito de não poder realizar diretamente interceptações, por exemplo, por não ter sido contemplado o fim de inteligência na Constituição nem na Lei das Interceptações35, o acesso a dados por meio de cooperação não estaria descartado. Caso revelado pelo jornal Folha de São Paulo em 2008 revela esse tipo de acesso indireto da ABIN a comunicações interceptadas disponíveis no sistema Guardião da Polícia Federal.36 Caso a Receita Federal disponha de documentos fiscais de empresas de telefonia em seus bancos de dados, à ABIN também estaria aberta a possibilidade de ter acesso a registros telefônicos de usuários.

Pela Lei 9.883/99, o Sisbin, em geral, e a ABIN, em particular, estão obrigados a respeitar direitos e garantias constitucionais em sua atuação (art. 1º, § 1º e art. 3º, parágrafo único), que é controlada e fiscalizada externamente pela Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência, comissão permanente do Congresso Nacional (art. 6º). A falta de transparência sobre a forma como se dá a cooperação pelo Sisbin impede a avaliação rigorosa da ABIN em termos de vigilância, e cobre a sua atuação de obscuridade e incertezas.

[Livro] Weapons of Math Destruction

outraspalavras.net/destaques/a-silenciosa-dominacao-por-algoritmos

Armas de Destruição Matemática (WMD, em inglẽs), da pesquisadoras de dados Cathy O’Neil, oferece uma visão mais cética dos algoritmos, com foco em seus custos e consequências sociais negativas. O’Neil documenta como os algoritmos – WMDs – podem punir os pobres e promover os privilegiados, num círculo que piora as desigualdades de raça e de classe do capitalismo. Por exemplo, acredita-se amplamente, nos Estados Unidos, que prisioneiros não-brancos de bairros pobres têm maior probabilidade de cometer crimes, e também estão mais dispostos a cometer outros crimes e voltar à prisão. Os modelos de reincidência que seguem a tendência de um criminoso condenado a reincidir sugerem que essas pessoas são mais propensas a estar desempregadas, não possuem diploma do ensino médio e tiveram, com os amigos, passagens anteriores pela polícia. Uma outra maneira de olhar para os mesmos dados, contudo, é que essas pessoas vieram de áreas pobres com péssimas escolas e poucas oportunidades. “Então as chances de um ex-prisioneiro que volta ao mesmo bairro ter outra encrenca com a lei é sem dúvida maior do que a de um sonegador de impostos que é solto e volta a um subúrbio frondoso.” Nesse sistema, observa O’Neil, “os pobres e não-brancos são punidos mais por serem quem são e viverem onde vivem.”

Armas de Destruição Matemática oferece vários exemplos inspiradores de como os algoritmos podem ser instalados como uma ferramenta muito poderosa, embora invisível, para dominar a vida cotidiana da pessoas. O livro é melhor escrito do que se pode esperar de um quant. As fontes humanas de O’Neil oferecem material vívido que ilumina histórias de dor e sofrimento infligidas às pessoas por empresas de crédito com as estratégias predatórias de empréstimo alimentadas por algoritmos. A partir de sua experiência como uma pesquisadora de dados, ela revela problemas com a entrada destes em algoritmos e explica como esses problemas podem levar à destruição de comunidades inteiras, desde a avaliação de professores até aqueles que enviam seus currículos à procura de empregos. A organização de O’Neil das experiências de pensamento para imaginar como os algoritmos poderiam informar as táticas da polícia em bairros brancos e ricos e para combater crimes de colarinho branco traz à tona o privilégio e a imunidade de que essas comunidades desfrutam quanto às consequências da pobreza. Ela propõe exemplos de como os algoritmos poderiam ser auditados e mantidos em padrões de responsabilidade. O livro de O’Neil tem muita força, ressaltando os problemas estruturais dos algoritmos como uma tecnologia e a obscena realidade de hoje, em que os ricos ainda são verificados por pessoas, enquanto a vasta maioria é cada vez mais gerida por máquinas.

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[Livro] Carta Aberta Sobre Tecnologia e Mediação

Essa semana estamos compartilhando um compilado de pequenos textos de vários autores que trata sobre a coerência do uso da tecnologia por anarquistas. Os textos são respostas a uma carta aberta escrita por Ron Leighton, onde ele indaga sobre o uso que anarco-primitivistas fazem da tecnologia para propagação de suas ideias. Os questionamentos iniciais de Leighton parecem estar carregados de conceitos pouco desenvolvidos sobre as posições de primitivistas e ludditas, porém o debate que se sucede aborda questões importantes para pensarmos o que é a tecnologia e até que ponto seu uso nos auxilia a alcançar nossos propósitos.

Os textos estão em inglês e podem ser baixados aqui.

Migrando sua chave OTR do Pidgin para o Gajim

Essa é uma postagem bem específica, mas pode quebrar o galho de alguém.

Sempre usei o Pidgin como gerenciador de contas de mensageria instantânea. Nele é possível configurar diversas contas de chat e já faz um bom tempo uso apenas o protocolo federado XMPP. Optei pelo Pidgin no Debian porque tinha a possibilidade de instalar o plugin do Off-The-Record (OTR), que faz encriptação de ponta-a-ponta no chat. Com isso, temos as seguintes condições de segurança satisfeitas:

  • Software livre de código aberto: pidgin
  • Protocolo federado: XMPP
  • Servidor autônomo: pode ser o do riseup.net
  • criptografia de ponta-a-ponta: OTR
  • controle das chaves públicas e, principalmente, da privada: numa subpasta da sua “/home/”

Aí outro dia, d4rkcrist4l postou aqui no blog falando que usar um plugin para rodar o OTR poderia ser uma furada. Então, fui atrás de outro programa. Infelizmente, não encontrei nenhum que satisfizesse todos os critérios acima, mais o meu gosto, e ainda tivesse o OTR embutido de fábrica. Porém, descobri outra falha do Pidgin. Dizem por aí que por ele ser escrito em C há mais chances de ele sofrer ataques relacionados à memória (cadê o LINK?), pois essa linguagem precisa de acesso total para manipulação da memória do computador.

Foi então que apareceu o Gajim. Um amigo já havia comentado dele e finalmente resolvi instalar. O Gajim é escrito em python, o que, até onde o meu conhecimento de leigo alcança, melhora drasticamente a vulnerabilidade de memória que o C pode ter. Além disso, esse programa também roda o OMEMO, protocolo que criptografa de ponta-a-ponta conversas em grupo, coisa que o OTR (e o pidgin) não faz.

Com o Gajim instalado, descobri que ele lida com as chaves OTR de um jeito diferente do Pidgin. Como eu não queria ter que gerar novas chaves, descobri um script que resolve o problema. Daqui pra frente é a tradução das instruções do repositório github do pidgin2gajim.


pidgin2gajim

Este programa converte as chaves OTR do formado Pidgin para o forma Gajim.

Seus arquivos OTR do Pidgin estão aqui:

~/.purple/otr.private_key  # chaves(s) secreta(s)
~/.purple/otr.fingerprints # impressões digitais (fingerprints)

Seus arquivos OTR do Gajim estão aqui:

~/.local/share/gajim/ACCOUNT.key3 # chave secreta
~/.local/share/gajim/ACCOUNT.fpr  # fingerprints

Quando você rodar o pidgin2gajim.py, ele irá carregar automaticamente os seus arquivos OTR do Pidgin do diretório ~/.purple/. Em seguida, criará um novo diretório relativo ao seu local atual chamado “output” e salvará nele os arquivos no formato-Gajim .key3 e .fpr para cada conta que você tiver no Pidgin.

Depois, você precisará mover manualmente os arquivos .key3 e .fpr do diretório “output” para o ~/.local/share/gajim/. Será preciso alterar um pouco o nome dos arquivos (por exemplo, retirar o prefixo “nome_de_usuária@”).

Copiei um bom tanto de código do projeto “otrfileconverter” do Guardian Project para as partes de carregar e manusear o arquivo de chave privada OTR do Pidgin: https://github.com/guardianproject/otrfileconverter

Como Usar

Primeiro, instale o Gajim:

sudo apt-get install gajim

Rode-o e configure suas contas XMPP (jabber). Clique em Editar -> Plugins e mude para a aba Disponível (Available). Baixe e instale o plugin do OTR. (Caso você queira usar novas chaves ou gerá-las pela primeira vez, faça o seguinte: na janela de plugins, selecione o Off-The-Record (OTR) e clique em Configurar para abrir as configurações do plugin. Para cada conta XMPP, gere uma nova chave OTR; feito isso, feche completamente o Gajim.)

Em seguida, baixe e rode o script pidgin2gajim:

$ git clone https://github.com/micahflee/pidgin2gajim.git
(copia o conteúdo do projeto que tá no github. Tem que tem o "git" instalado.)

$ cd pidgin2gajim

(agora instale a biblioteca python-virtualenv)
$ sudo apt-get install python-virtualenv
$ virtualenv env
$ . env/bin/activate 
$ pip install pyparsing
$ pip install python-potr
$ ./pidgin2gajim.py
$ ls -l output
$ deactivate 

Agora sobrescreva suas chaves OTR do Gajim com as criadas a partir das do Pidgin que estão no diretório output.

Seria algo assim:

# descrição do comando: copiar chave_em_output para novo_nome_chave_outro_lugar
$ cp output/micah@jabber.ccc.de.key3 ~/.local/share/gajim/jabber.ccc.de.key3
$ cp output/micah@jabber.ccc.de.fpr ~/.local/share/gajim/jabber.ccc.de.fpr

O nome “fulana” dos arquivos fulana.key3 e fulana.fpr tem que ser o mesmo nome que está configurado na conta no Gajim.

Abra o Gajim novamente. Se tudo tiver corrido bem, suas chaves OTR já devem estar no Gajim. Pronto.

Atenção: nova versão do Tor Browser

O que segue é um resumo. A postagem completa está no blog do tor project.

O Tor Browser 6.0.7 está disponível na página do Tor Browser Project e também no distribution directory.

Este lançamento realiza uma importante atualização de segurança no Firefox e contém, adicionalmente, uma atualização do NoScript (2.9.5.2).

A falha de segurança responsável por este lançamento urgente é altamente explorada hoje em sistemas Windows. Até onde se sabe, o tal bug não afeta usuários de OS X ou Linux. Mesmo assim, recomendamos fortemente que todos os usuários atualizem seu Tor Browser imediatamente. É preciso reiniciá-lo para que a mudança seja efetiva.