[entrevista] Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo

O Portal Planeta Minas Gerais fez uma entrevista conosco em nossa passagem pela CriptoTrem. Confira a entrevista, em duas partes:

Parte 1: Proteção e segurança digital: um convite à militância

Parte 2: Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo


Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo

Que o governo de extrema direita de Jair ‘O Coiso’ Bolsonaro enaltece o fascismo (que não é de esquerda!), a ditadura militar, os cortes na previdência dos trabalhadores e nas modificações das bases educaionais, não é novidade. Mas há ainda muito o que se preocupar. Com um governo repleto de militares, mais dos que os da época da ditadura, uma Polícia Federal que mais se assemelha à Gestapo, o governo esconde que a famigerada lei antiterrorismo que Bolsonaro quer aprovar, criminilarizará os movimenos sociais e todos que resolvam questionar seus direitos. Mas há ainda muito o que se preocupar. A segurança digital, que eu e você, usamos todos os dias quer seja pelas redes sociais ou no google, pode estar em risco.

Nossa equipe conversou com os caras do Coletivo Anarco Tecnológico Mariscotron, durante o evento ‘CriptoTrem 2019’, ocorrido em Belo Horizonte.

P: O ativismo de vocês é na rede (internet) ou vocês possuem um ativismo combativo?
R: Na rede, apenas divulgamos materiais e replicamos notícias. Nossa principal atuação é diretamente com as pessoas que buscam melhorar suas práticas de segurança. Um pouco mais rara é a produção de livros e zines.

P: Vocês se consideram hackers, ativistas digitais ou militantes?
R: Se considerarmos hacker a pessoa que quer entender a fundo como softwares, sistemas e equipamentos funcionam e, caso deseje, faça modificações ou testes, então sim, somos hackers. Trocamos muito conhecimento e também aprendemos a aprender por conta própria. Mas junto a isso, temos que ressaltar nossa posição política: somos anarquistas e estamos construindo o tempo todo formas de aumentar nossa autonomia social. Privacidade e solidariedade precisam andar juntas.

P: O q vocês pensam sobre a importancia ou trabalho da mídia alternativa?
R: A mídia independente sempre ocupou um papel central no ativismo, através da difusão de ideias, chamados para ações, denúncias e reflexões sobre as lutas sociais. Este papel é histórico, e acompanha o advento das novas tecnologias de cada época, desde a imprensa operária no início do século, as rádios livres, e com a Internet iniciativas internacionais e federadas como o Centro de Mídia Independente. De certa forma, também atuamos como mídia independente, pois produzimos, traduzimos e divulgamos materiais focados em tecnopolítica.

P: Vcs acham que a mídia alternativa tem sido hackeada pelo governo ou tem sofrido coação?
R: Por enquanto, não tivemos nenhum relato de ataque cibernético realizado pelo governo brasileiro. O que tem sido mais frequente são as ações de coação, realizadas por grupos de extrema-direita que formam a base social do atual governo. Estes grupos atuam como milícias virtuais em uma guerra psicológica, e visam expor e ameaçar pessoas ligadas a causas consideradas “subversivas” pela ordem neo-fascista que visam
estabelecer. Desde o início do ano, já tivemos alguns casos de pessoas públicas no país, que embora tenham bastante visibilidade, sofreram com ameaças de morte, agressão e linchamentos. Por outro lado, feministas, como Lola Aronovich, já sofrem trollagem e ameaças de morte há muitos anos. Imaginamos que pessoas que atuam com mídia alternativa a nível local também poderão sofrer com este tipo de coação.
Aqui, apenas um exemplo do que pode acontecer:
https://www.theguardian.com/technology/2016/jan/07/ukrainian-blackout-hackers-attacked-media-company

P: Hoje a comunicação dos movimentos sociais é quase toda feita pelo whatsapp ou no facebook, vocês acham que é preciso adotar algum mecanismo mais seguro pra comunicação?
R: Sim, este foi um dos motivos que nos levou a constituir o coletivo. Nossa formação enquanto ativistas passou por experiências com os movimentos de mídia alternativa que surgiram após o ano 2000, portanto tivemos contato com uma prática política de apropriação dos meios de comunicação, através do software livre, da criação de sites na Web e da própria gestão de nossos servidores. Portanto, não foi somente a questão da segurança que nos assustou quando vimos tantos ativistas abraçando estas ferramentas corporativas e abandonando as suas próprias, foi uma questão política também. Whatsapp e Facebook são ferramentas corporativas e de uma única empresa, que depois se revelou pivô em escândalos de manipulação de massas, como a Cambridge Analytica ou na propaganda massiva de noticias falsas para alavancar o candidato fascista das últimas eleições.

Em termos de segurança, o Facebook é uma distopia. Coletam todo tipo de informação sobre você e seus relacionamentos, e a comunicação via Messenger não é criptografada, podendo ser espionada pelo governo.

Já a comunicação via Whatsapp é criptografada, entretanto ele é um software de código fechado, sendo impossível saber como foi feita sua implementação, e se existem brechas – propositais ou por acaso – na segurança do aplicativo. Outro aspecto é que muitas pessoas habilitam a cópia automática de todas as suas mensagens para o Google Drive, onde as conversas são armazenadas sem criptografia alguma.

Como alternativas, temos adotado o Signal, que é software livre, e tem mensagens criptografadas por padrão. Além disso, o Signal implementa uma série de medidas de proteção dos seus metadados, quer dizer, com quem você está conversando e quando. Esses dados são muito importantes e muitas vezes suficientes para saber muito sobre os hábitos das pessoas e
as relações entre elas. O Signal garante que só quem tem acesso a esses dados é a própria usuária, enquanto o Whatsapp armazena todos esses dados.

Entretanto este tipo de comunicação é somente um dos aspectos para tornar a nossa vida digital mais segura. Existem outros, o que motivou uma articulação nacional que propôs um conjunto básico de ferramentas, assim como guias e manuais que podem ser encontrados no site autodefesa.org. Recomendamos este site e o material lá publicado como o mínimo a se fazer agora.

Mas é sempre bom lembrar que independente do software que se use, boas práticas de comunicação são o elemento cultural que manterá nosso ativismo funcionando.

P: Com esse governo fascista, repleto de militares, os movimentos sociais e todos que resolvem discordar da posição do Bozo, tem sido hackeados pelo governo. Vocês acham que não só a militancia, mas todos devem se proteger?
R: Pelos ambientes em que atuamos, costumamos falar sobre os riscos de perseguição política, mas os impactos da vigilância afetam a todas as pessoas. Parceiras que são vigiadas em relações abusivas, trabalhadoras que têm sua comunicação espionada pelo patrão, seguradoras de saúde que usam seus dados de redes sociais para te precificar, lojas, supermercados e operadoras de cartão de crédito que sabem tudo que você consome, companhias de transporte que sabem todos os trajetos que você faz, aplicativos de relacionamento que sabem com quem você se relaciona e os seus desejos, ou até a receita federal que pode inferir sua renda através da ostentação consumista em redes sociais, todos esses são apenas exemplos dos resultados dessa vigilância massiva. Recomendamos o documentário “Nothing to Hide” que faz uma boa análise nesta perspectiva.

Podemos abordar a questão por outro lado também. Segurança não é simplesmente eu instalar o signal. É uma questão social que envolve muitas pessoas e organizações. Qualquer um que transitar neste mundo, terá que interagir. E nessa interação há constante e, cada vez mais, abundante troca de informações. Assim, teremos muito mais condições de enfrentar os riscos do nosso ativismo num ambiente que promove a cultura de segurança do que num ambiente paranoico. Vejamos o caso do Navegador Tor: se poucas pessoas usam a rede Tor, elas são facilmente identificadas e marcadas como suspeitas. Se muitas pessoas passarem a usar, mesmo sem ser para se protegerem, aquelas pessoas que estão precisando agora de anonimato poderão ter um pouco mais de tranquilidade para fazer o que
precisam.

P: Temos como nos proteger dessa vigilãncia feita pelo governo ou a internet como utilizamos não favorece isso?
R: Antes de tudo, a internet é uma rede de computadores que troca informações. É claro que serviços digitais como facebook ou gmail, construídos por corporações para lucrar em cima das interações das pessoas, são chave para levar a vigilância e o controle para os aspectos mais cotidianos das nossas vidas. Porém, existe vida lá fora. E é sobre isso que falamos em nossas formações: tem muita gente desenvolvendo e lutando por uma internet aberta e que preserve nossa privacidade.

Entretanto, o campo burocrático ou dos serviços públicos têm dependido cada vez mais de sistemas digitais, o que força o cidadão a vincular muitos dados da sua vida pessoal com seu CPF, por exemplo. O seguinte caso é emblemático: a primeira ação de larga escala que os nazistas realizaram foi um censo, processado com ajuda de computadores de IBM. Hoje, todos os governos (democráticos ou não) possuem tantos dados sobre
as pessoas que nem sabem o que fazer com isso. Porém, a gente conhece a História: todos os governos, sejam monarquias ou democracias, tratam seus cidadãos como porcos numa fazenda. Na hora do abate, não há hesitação.

P: No mundo todo o discurso da extrema direita ganhou força, estamos vivendo uma retração da tolerância ideológica ou um tipo de guerra na web?
R: Um misto das duas coisas, com o agravante é que agora a manipulação de massas com propósitos fascistas conta com novas armas: um poder de processamento gigantesco, com dados cedidos voluntariamente ou não de milhões de pessoas. Casos como o da Cambridge Analytica revelam só o início de como este tipo de estratégia terá cada vez mais importância
para os Estados em seus projetos de dominação.

P: Sobre isso ainda, a NSA, CIA e outras agencias de rastreamento do governo, usam a internet para procurar suspeitos. É possível que os movimentos sociais, a imprensa, a sociedade unida pode lutar contra estas armas governamentais?
R: Sim, caso contrário teríamos desistido do coletivo e se escondido no meio do mato! Brincadeiras à parte, acreditamos que o ponto principal é desenvolvermos uma cultura de segurança, o que deve ser um processo coletivo, descentralizado e contínuo. As mudanças que estão vindo por aí só estão começando, e serão muito rápidas. Teremos que reagir
rapidamente, e buscar formas de se apropriar e transformar a tecnologia para construir modos de resistência.

P: O que vocês pensam sobre a efetividade das leis brasileiras q deveriam fornecer segurança e proteção dos dados de usuários da internet (como o marco civil da internet, por ex)
R: As leis podem até ajudar a mitigar alguns pontos da vigilância e invasão de nossa privacidade, não negamos que elas têm algum valor e respeitamos os coletivos que possuem este enfoque mais legalista. Entretanto, nosso foco enquanto um coletivo anarquista é buscar formas de autodefesa, onde por construção as tecnologias ou comportamentos possam nos proteger desta vigilância.

P: Como o usuário comum pode fazer para se proteger e manter seus dados pessoais, opinião, fora do alcance do governo?
R: Alguns dados são exigidos pelo próprio Estado para prover seus serviços, e muitas vezes são vendidos para empresas privadas (como é o caso de dados biométricos utilizados para participar das eleições), ou mesmo vazados por incompetência técnica, como foi revelado recentemente sobre dados do SUS. Outros tipos de dados, como a maioria dos metadados, são
necessários para o próprio funcionamento das comunicações (sem o nome do destinatário, o carteiro não saberia onde deixar a carta). Sobre o que está em nosso controle, podemos utilizar ferramentas que nos ajudam a preservar o nosso anonimato e privacidade. Sobre as opiniões públicas, existe uma linha tênue entre a necessidade de se posicionar e o receio da perseguição, mas não nos cabe fazer esta avaliação, que é algo muito pessoal.

O gerenciamento de identidades pode ser útil nessa situação. Só como um exemplo, temos quatro tipos de identidades que podemos usar para nos expressarmos no mundo: nome civil, pseudônimo(s), heterônimo(s), anônimo.

P: Vocês teriam alguma coisa a dizer sobre a prisão de Julian Assange?
R: É um recado claro para todas que desafiam a ordem estabelecida e um ataque a liberdade de imprensa. Mostra como o “ocidente democrático”, sob comando dos EUA, em conjunto com um Estado vassalo na América Latina podem se unir para perseguir politicamente qualquer um, mesmo aqueles que contam com visibilidade internacional, como é o caso do Assange. Não podemos esquecer de Chelsea Manning, que foi quem forneceu muitos dos documentos para o Wikileaks e que está presa desde 8 de março deste ano. E também temos a prisão recente de Ola Bini no Equador, programador sueco que colaborava com o Wikileaks. São muitos recados em um curto
espaço de tempo para considerarmos apenas coincidência. A criminalização de hackers e jornalistas só vai aumentar.

P: Como os movimentos sociais, ativistas podem fazer pra entrar em contato com vocês?
R: Temos um site: mariscotron.libertar.org, e também um endereço de e-mail org-mariscotron@lists.riseup.net, estes são atualmente nossos canais de comunicação.

O Mariscotron é um coletivo anarquista que promove cultura de segurança. A partir de 2013, com as jornadas de junho e as revelações do caso Snowden sobre a vigilância massiva das agências de inteligência americanas, começaram oferecer oficinas sobre comunicação digital segura, e proteção digital.

[entrevista] Proteção e segurança digital: um convite à militância

O Portal Planeta Minas Gerais fez uma entrevista conosco em nossa passagem pela CriptoTrem. Confira a entrevista, em duas partes:

Parte 1: Proteção e segurança digital: um convite à militância

Parte 2: Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo


Proteção e segurança digital: um convite à militância

Edward Snowden, Julian Assange, Ola Bini, Deep Web, Facebook, Censura e rastreamento digital, estão mais presentes no nosso cotidiano do que você imagina. A era da perseguição digital já chegou. Será que estamos prontos para mantermos nossa privacidade intacta?

Em 12 de abril, a Polícia Metropolitana de Londres deteve  Julian Assange, cofundador do Wikileaks, depois que o Equador cassou o asilo diplomático. Assange enfrenta a acusação de um grave crime contra a segurança dos computadores: a publicação, no site Wikileaks, de centenas de milhares de documentos classificados pelo Departamento de Defesa como secretos, e por montar uma rede de fontes que revelaram ao mundo farsas e manipulações governamentais. Diante deste quadro de incertezas, de espionagens na rede, que cresce cada vez mais a necessidade de nos protegermos, de mantermos segura nossas identidades e privacidade.

O Mariscotron é um coletivo anarquista que promove cultura de segurança. Entrevistamos os caras sobre diversos assuntos, tão oportunos neste momento que vivemos.

Planeta: Como surgiu o coletivo?

M@: Muitas de nós já praticavam formas mais seguras de comunicação e organização, herança da participação em organizações como Centro de Mídia Independente, Movimento Passe Livre e rádios livres. Porém, a partir de 2013, com as jornadas de junho e as revelações de Snowden sobre a vigilância massiva das agências de inteligência gringas, começamos a pesquisar sobre estes assuntos com mais dedicação e profundidade. Em 2014, oferecemos nossa primeira oficina sobre comunicação digital segura, marcando o início do coletivo.

Planeta: Quais são os objetivos ou causas que vocês defendem?

M@:Nosso objetivo principal é a promoção de uma Cultura de Segurança. Para isso, oferecemos oficinas e formações, assim como traduzimos informações técnicas e de metodologia para o português. Temos como horizonte político uma sociedade anarquista, onde a autonomia, a livre associação, a cooperação formem o senso comum e não a exceção. Portanto estes princípios nos orientam politicamente em nossa relação com a tecnologia, mas também nas relações que estabelecemos com os coletivos e pessoas com as quais colaboramos, visando apoiá-las em seus objetivos próprios de transformação social.

Durante o último ano, quando ocorreram as eleições para presidente, resultando na eleição democrática de Bolsonaro, começamos a repensar nossa forma de atuação. Em nossas discussões internas e reflexões, levando em consideração tanto o contexto global e o nacional, assim como as nossas capacidades como coletivo, chegamos a uma estratégia chamada Segurança de Pés Descalços. Esse é um plano de longo prazo que visa elevar o nível geral da segurança ativista através da descentralização do cuidado, da autonomia do aprendizado e da continuidade das formações. O elemento chave dessa estratégia é uma figura que chamados de “agente multiplicador”. Essa pessoa será acompanhada durante meses numa formação de boas práticas de segurança e técnicas básicas de privacidade replicando esse conhecimento no seu próprio coletivo ou organização de
atuação. Queremos assim, pensando nos próximos 10 anos, que os grupos não dependam dos coletivos formadores (especialistas) e caminhem o melhor possível com suas próprias pernas dentro do seu contexto específico.

Planeta: de que forma vocês podem ajudar os coletivos, os movimentos sociais e a militância?

M@:De maneira geral, atuamos através de oficinas e formações para organizações ativistas. A partir desse ano, com a estratégia da Segurança de Pés Descalços, colocaremos nosso esforço na formação de agentes multiplicadores e na divulgação dessa visão estratégica. Como não estamos em Belo Horizonte, seria muito difícil e custoso fazer o acompanhamento de agentes em BH. Porém, nossa presença aqui (com uma conversa na CriptoTrem) auxilia no contato entre ativistas da cidade e na formação dessa rede difusa que aproxima movimentos sociais e formadores em segurança por todo o Brasil.

Planeta: Como os movimentos sociais podem fazer pra se protegerem?

A primeira coisa é entenderem a importância do cuidado (de maneira ampla) para a manutenção e ampliação do seu espaço de trabalho. Isso desperta a consciência para a necessidade de dedicar tempo e energia para uma mudança de comportamento, tanto pessoal como da organização.Isso é o principal.

Temos, todas nós, que adotar boas práticas de segurança para criar um ambiente geral mais seguro, é isto que chamamos
de desenvolver uma Cultura de Segurança. Só por último é que vamos olhar para softwares ou técnicas específicas. Para entendermos a necessidade de mudança, precisamos ter fundamentos e princípios sólidos que embasem nossa ação. Assim, caso precisemos trocar de aplicativo ou adotar uma
nova prática, isso acontecerá de forma espontânea e determinada.

Planeta: Expliquem melhor sobre o programa segurança de pés descalços

M@: Gostaríamos de ressaltar o plano estratégico da Segurança de Pés Descalços. Estamos apostando na construção coletiva deste plano, e esperamos contar com o apoio de outros coletivos em uma ação coordenada, visando elevar o nível de segurança de forma descentralizada e autônoma. A versão atual deste plano pode ser lida em: https://spd.libertar.org, e ele está aberto para colaboração.

[fim da entrevista]

Auto proteção e segurança digital: governo X privacidade do usuário

Os direitos fundamentais sobrepuseram-se, assim, às estratégias de concorrência entre nações e as telecomunicações se revelaram como ambiente no qual a tensão entre a violação e a garantia desses direitos se coloca em plano global.

Com o empurrãozinho que nos foi dado pelo caso Snowden, conseguimos fortalecer nossa luta em defesa da garantia de direitos fundamentais, o que resultou na aprovação do Marco Civil da Internet no Brasil e na realização do NET Mundial, primeiro encontro mundial e multissetorial tendo como agenda central o debate sobre o futuro de uma nova governança da Internet. Defender esse exilado contra a perseguição que vem sofrendo atualmente é reafirmar como prioridade a salvaguarda desses direitos.

Fonte: com informações do Coletivo Mariscotron/El País/Carta Capital

Desenvolvedor e Defensor de Direitos Digitais é Preso no Equador

Ola Bini, um desenvolvedor de software livre e ativista pelos direitos digitais e a privacidade foi detido no Equador.

Sua detenção está sendo justificada pela policia pelo fato de ele “viajar muito e ler livros técnicos”, dentre esses livros, citam o fato de ele possuir o livro “Cyber Guerra” de Richard A. Clarke. Por outro lado, de acordo com um boletim emitido pelo Procurador-Geral , Ola teria sido detido para que fossem investigadas atividades ilegais relacionada ao Wikileaks.

A criminalização de pessoas que desenvolvem ferramentas para aumentar a privacidade e que se dedicam para proteger o direito a privacidade é algo muito preocupante. A privacidade é um direito básico de todo o ser humano.

Abaixo está a declaração do Centro de Autonomia Digital (original em Inglês e Espanhol), organização onde Bini atua como Diretor Técnico.

As pessoas que trabalham com software livre e privacidade não devem ser criminalizadas

Não há nada criminoso em querer privacidade.

Ola Bini, @olabini, uma reconhecida figura no âmbito do software livre mundial e defensor dos direitos digitais e a privacidade na Internet, foi detido no aeroporto de Quito, Equador às 15h20 de 11 de abril de 2019. Até onde se sabe não há acusações ou provas contra ele. Não foi permitido a seus advogados se reunirem com ele durante todo o dia de ontem. Às 18h00 anunciaram que o iriam mover para a Unidade de Flagrante da Promotoria no centro norte de Quito para colher testemunhos no âmbitode uma investigação da Promotoria provincial de Pichincha.

Bini, cidadão sueco residente em Equador  não fala fluentemente espanhol e requer um interprete para dar qualquer declaração. O prenderam ilegalmente, sem acusações conhecidas, sem comunicar às autoridades de seu país (Suécia) como estabelecem os protocolos internacionais.

Bini é o Diretor Técnico do Centro de Autonomia Digital e havia postado em sua conta no twitter que iria viajar ao Japão para um curso de artes marciais, uma viagem planejada há mais de um mês. Viu os comentários da ministra do Interior e tweetou: “María Paula Romo, a Ministra do Interior do Equador, esta manhã realizou uma coletiva de imprensa, onde foi alegado que hackers russos vivem no Equador e que uma pessoa próxima ao Wikileaks também vive no país.”

Bini tem sido um programador de software durante toda sua vida. Começou a programar com 8 anos e criou duas linguagens de programação. Tem sido um ativista de privacidade e software livre por muito tempo. Em 2010, a Computerworld na Suécia o nomeou como o 6º melhor desenvolvedor do país.

Já contribuiu com:

  • loke
  • Seph
  • JesCov
  • JRuby
  • JtestR
  • Yecht
  • JvYAMLb
  • JvYAML-gem
  • RbYAML
  • Ribs
  • ActiveRecord-JDBC
  • Jatha
  • Xample
  • JOpenSSL

CRIPTOCERRADO – Amanhã em Brasília

Acontece amanhã em Brasília a CriptoCerrado! Serão 10h de programação em quatro ambientes com muitas atividades simultâneas. Já está no ar a programação completa!

A Criptofesta Cerrado oferecerá uma série de palestras e oficinas para iniciantes e iniciados sobre o atual contexto de cultura, economia e política baseada em dados e em vigilância massiva. Haverá oficinas sobre cultura de segurança e proteção, bem como formações práticas.

13 formas de agressão online contra mulheres

25/11/2018
Por Luchadoras, Social TIC e APC

https://www.genderit.org

Acesso ou controle não autorizado
Ataques ou restrição de acesso a contas ou dispositivos de uma pessoa

Monitoramento e stalking
Vigilância constante da vida online de uma pessoa

Ameaças
Conteúdos violentos, lascivos ou agressivos que manifestam uma intenção de dano a alguém, a seus entes queridos ou bens

Difamação
Desqualificação da trajetória, credibilidade ou imagem pública de uma pessoa através da exposição de informação falsa, manipulada ou fora de contexto

Omissões po parte de atores com poder regulatório
Falta de interesse, reconhecimento, ação ou menosprezo por parte de autoridades, intermediários da internet, instituições ou comunidades que podem regural, solucionar ou sancionar violência online

Controle e manipualção da informação
Roubo, obtenção, perda de controle ou modificação de informação de forma não consentida

Expressões discriminatórias
Discurso contra mulheres e pessoas não binárias que reflete padrões culturais machistas baseados em papéis tradicionais de gênero

Difusão de informação pessoal ou íntima
Compartilhar ou publicar sem consentimento algum tipo de informação, dados ou informação privada que afete uma pessoa

Abuso sexual relacionado com a tecnologia
Exercício de poder sobre uma pessoa a partir da exploração sexual de sua imagem e/ou corpo contra sua vontade, pode implicar a obtenção de um benefício lucrativou ou de outro tipo

Suplantação ou roubo de identidade
Uso ou falsificação da identidade de uma pessoa sem seu consentimento

Assédio
Condutas de caráter reiterado e não solicitado que acabam sendo incômodas, perturbadoras ou intimidantes

Extorsão
Obrigar um pessoa a seguir a vontade ou petições de um terceiro por possuir algo de valor para ela, como no caso de informação pessoal

Ataques a canais de expressão
Táticas ou ações deliberadas para tirar ou deixar fora de circulação canais de comunicação ou expressão de uma pessoa ou grupo

Depois de dois anos seguindo e acompanhando mulheres que vivem o que chamamos de violência online, violência cibernática ou violência digital, Luchadoras, Social TIC organizações sociais sediadas no México, e a Asociación por el Progreso de las Comunicaçciones, elaboraram a seguinte tipologia que dá conta de 13 formas distintas de agressão contra as mulheres através das tecnologias.

Quatro considerações básicas

1. O que entendemos por “violência online” são na realidade práticas muito diversas que através da vigilancia, do controle ou da manipulação da tua informação ou de teus canais de comunicação tem como objetivo causar dano.
2. Não está desconectada da violencia machista que vivemos nas ruas, nas casas, nas camas; quer dizer não existe uma separação online/offline e é tão real como qualquer outra forma de violencia. É um mesmo velho sistema que usa novas plataformas.
3. Em um mesmo caso de violencia online podem se manifestar uma série de agressões distintas. Nessa tipologia decidimos nomear todas elas.
4. Por si mesmas, nenhuma agressão é mais grave que outras e tampoucou são necesssariamente uma escala que vai de menor a maior, mesmo que em alguns casos sim elas podem ser interdependentes ou uma engendrar a outra.

Por exemplo: Alguém rouba teu celular. Encontra fotos intimas em teus arquivos. Te escrevem uma mensagem pedindo dinheiro em troca de não publicá-las. Não cedes. Esse alguém decide colocá-las online e te marca. As pessoas começam a te insultar e a te dizer que estavas pedindo. Denuncias e nao recebes uma boa resposta de parte das plataformas nem das autoridades.

O que foi que aconteceu?

– Alguém rouba teu celular -> Acesso nao autorizado
– Encontra fotos intímas nos teus arquivos -> Controle da informação
– Te escrevem uma mensagem pedindo dinheiro em troca de não publicá-las -> Extorsão
– Não cedes. Esse alguém decide colocá-las online e te marca. -> Difusão de informação intima sem consentimento.
– As pessoas começam a te insultar e a te dizer que estavas pedindo. -> Expressões discriminatórias.
– Denuncias e nao recebes uma boa resposta de parte das plataformas nem das autoridades. -> Omissão por parte de atores com poder regulatório.

Para a elaboração dessa tipologia, foram revisados os tipos de ataques online contra as mulheres enunciados por organizações como Asociación para el Progreso de las Comunicaciones, Article 19, Cimac, Digital Rights Foundation, Women’s Media Center, e Women Action Media, assim como de processos como Coming Back to Tech de Tactical Tech Collective.

Oportunidade de Estágio em Projetos de Código Aberto

A Outreachy está com inscrições abertas para o programa de estágios de inverno. São vagas nas áreas de programação, experiência de usuário (UX), documentação, ilustração e design gráfico ou data science. As vagas são em projetos de Software Livre e de Código Aberto, e são oferecidas preferencialmente para mulheres (cis ou trans), homens trans, e pessoas genderqueer.

Os estágios tem duração de três meses e as posições de trabalho são completamente remotas. O valor da bolsa é de 5.500,00 doláres e um adicional de 500,00 doláres para custos de viagem. Interessadxs tem até o final de outubro para aplicarem nesse endereço.

 

Atenção usuários de PGP: Novas vulnerabilidades exigem que você aja agora

do site da EFF.

13 de maio de 2018

Um grupo de pesquisadores de segurança europeu publicou um aviso sobre um conjunto de vulnerabilidades que afetam usuários de PGP e S/MIME. A EFF está em contato com essa equipe de pesquisa e pode confirmar que essas vulnerabilidades colocam um risco imediato para as pessoas que usam essas ferramentas de comunicação por email, incluindo a potencial exposição do conteúdo de mensagens antigas.

Todos os detalhes serão publicados em um artigo na próxima terça-feira às 7:00 AM UTC. Para reduzir os riscos no curto prazo, nós e a equipe de pesquisa acordamos em alertar a comunidade de usuários de PGP antes da sua publicação.

Nosso conselho, que é o mesmo que o da equipe, é desabilitar ou desinstalar imediatamente as ferramentas que descriptografam automaticamente os emails criptografados com PGP. Até que as falhas descritas no artigo sejam melhor compreendidas e corrigidas, usuários devem conseguir formas alternativas de comunicação segura de ponta-a-ponta, tais como Signal, e parar temporariamente de enviar, e especialmente de ler, emails criptografados com PGP.

Por favor, use os seguintes guias para saber como desabilitar temporariamente os plugins de PGP em:

Thunderbird com Enigmail

Apple Mail com GPGTools

Outlook com Gpg4win

Esses passos buscam ser paliativos temporários e conservadores do ponto de vista da segurança até que os riscos imediatos dessas falhas passem e sejam mitigados.

Lançaremos uma explicação e análise mais detalhada quando mais informações estiveram disponíveis publicamente.

Perspectivas Anarquistas sobre a Neutralidade da Net: O Cerceamento Digital dos Bens Comuns

 

Na semana passada, a FCC (Comissão Federal de Comunicações, da sigla em inglês) votou para revogar a Neutralidade da Net nos EUA. Sem essas proteções, as corporações privadas – e a classe que as controla – pode moldar qual a informação fica disponível para as pessoas de acordo com seus próprios interesses. Imagina um futuro onde o conteúdo amplamente disponível na internet é comparável com o que você podia assistir na televisão aberta nos anos 1980! Hoje, os fluxos de informação na internet são quase idênticos com os nossos processos de pensamento coletivo: eles determinam o que podemos discutir, o que podemos imaginar. Mas o problema fundamental é que a internet sempre foi controlada pelo governo e pelas corporações.

É muito representativo que o setor privado tenha transformado de forma progressiva uma estrutura de desenvolvimento militar comparativamente mais horizontal em algo menos participativo e igualitário. Infelizmente, não existe uma alternativa anarquista, uma internet das pessoas para construir em cima; essa é a única. Socialistas de Estado aproveitaram essa oportunidade para promover a nacionalização da internet, argumentando que essa é uma oportunidade de formular uma visão de um futuro melhor. Mas se não queremos que a classe capitalista controle nossa comunicação, o controle pelo Estado não solucionará o problema: afinal é o Estado que está pondo as corporações no controle, e os modelos existentes de controle estatal (pense na China) são tão opressivos quanto os corporativos. Devemos tomar passos pragmáticos para defender nossos direitos no contexto atual. Porém, um quadro baseado em direitos mas que atribui ao Estado um papel de árbitro de questões sociais nunca irá garantir nossa liberdade. Se queremos uma visão verdadeiramente libertária de um futuro melhor, temos que pensar para muito além disso.

Uma abordagem anarquista deve começar por rejeitar a falsa dicotomia entre poder das corporações e poder estatal. A partir daí, precisamos ousar sonhar com formas descentralizadas de infraestrutura que sejam resilientes contra controle de cima para baixo. A internet, na sua forma atual, é de fato indispensável para participar da sociedade; mas isso não significa que devemos tomar a forma atual da internet – ou da sociedade – como o único ou o melhor modelo que existe. Até porque, foram nossos recursos, extraídos de nós na forma de impostos, mão de obra e inovação que ajudaram a criar ambos. O que seríamos capazes de criar se nossos esforços não fossem moldados pelas amarras do Estado e os imperativos do mercado?

Nosso objetivo de longo prazo deveria ser retomar as estruturas que ajudamos a construir, mas teremos que transformá-las para que funcionem de acordo com os nossos interesses – e também podemos começar a experimentar com estruturas paralelas agora mesmo. Até reformistas devem reconhecer que fazer isso é praticamente a única forma de ganhar influência sobre aqueles que hoje controlam os meios pelos quais nos comunicamos.

A tecnologia nunca é neutra. É sempre política: sempre expressa e reforça as dinâmicas de poder e aspirações que estiveram lá desde o início. Se engenheirxs e programadorxs não constroem a partir de um enfoque político com a intenção explícita de criar relações igualitárias, seu trabalho sempre será usado para concentrar poder e oprimir as pessoas.

Para saber mais sobre as limitações codificadas no cerne do mundo digital pelo capitalismo, leia Desertando a Utopia Digital. Para detalhes sobre o fim da Neutralidade da Net e as alternativas radicais ao controle corporativo, leia o seguinte texto de Willian Budington, também entrevistado pelo audiozine The Final Straw.

Texto original em crimethinc.com/2017/12/15/anarchist-per…

Servidor do CMI da Alemanha é apreendido

Na semana passada uma forte onda de repressão contra movimentos sociais foi deflagrada em diversos países da Europa Ocidental. Essa medida foi em grande parte uma resposta às grandes manifestações que ocorreram na cidade de Hamburgo, Alemanha, durante o encontro anual do G20 que aconteceu em julho desse ano. Como parte dessas ações de repressão, houveram invasões em centros sociais, detenções e apreensão de equipamentos em diversos países. Na Alemanha a polícia apreendeu os servidores do site linksunten.indymedia.org, o principal coletivo de midia independente da Alemanha. Como muitos dos sites do IndyMedia.org ao redor do mundo, o site era um importante ponto de divulgação de manifestações e eventos, vazamento e difusão de informações e plataforma de debate e organização. Em comunicado o coletivo promete retornar em breve. Leia artigo que saiu originalmente no site do Centro de Midia Independente daqui:

O governo alemão proibiu o site do coletivo Indymedia Linksunten linksunten.indymedia.org, a plataforma de língua alemã mais utilizada por organizações políticas radicais. Eles também realizaram batidas na cidade de Freiburg para apreender computadores e perseguir aqueles que acusam de administrar o site, absurdamente justificando isso com base na acusação de que os supostos adminstradores são parte de uma organização ilegal com o objetivo de destruir a Constituição Alemã. Isso representa uma escalada maciça na repressão estatal contra o que as autoridades chamam de “extremismo de esquerda”, sugerindo, de forma nada ingenua, uma equivalência entre aqueles que procuram construir comunidades fora do alcance da violência estatal e neonazistas se organizando para realizar ataques e assassinatos como o de Charlottesville na semana passada.

Indymedia foi fundado na Alemanha em 2001 como de.indymedia.org; uma segunda versão apareceu em 2008 como linksunten.indymedia.org. Este último foi fundado para se concentrar em ações políticas radicais no sul da Alemanha, mas logo se tornou a página mais utilizada para ativistas de língua alemã. Como a página original do Indymedia alemão tornou-se tecnicamente desatualizada e inundada por trolling, mais e mais pessoas mudaram para o linksunten.indymedia.org. Em 2013, de.indymedia.org estava quase fechado porque não havia pessoas suficientes envolvidas .

Nos últimos dois anos, mais e mais atenção se acumulou em torno de linksunten, que oferece um espaço para que as pessoas postem anonimamente. Por exemplo, em 2011, um comunicado apareceu na plataforma reivindicando a responsabilidade por sabotagem politicamente motivada na infra-estrutura do metrô em Berlim. O site também foi usado para divulgar informações sobre fascistas e neonazis. Em 2016, um artigo no linksunten apresentou os dados completos de cada participante na convenção do Partido Nacionalista de extrema direita Alternativa para a Alemanha ( Alternative für Deutschland ou AfD), um total de 3000 nomes. Isso atraiu ainda mais a atenção hostil dos defensores de extrema-direita da repressão estatal.

Antes do encontro do G20 de 2017 ter ocorrido em Hamburgo, a mídia corporativa já estava focada em linksunten, declarando que a página servia como coordenação de manifestantes anti-G20. O AfD começou uma campanha contra a plataforma, levando inquéritos sobre o Indymedia no parlamento federal e tentando forçar os governos locais a proibirem a plataforma e outras formas de infra-estrutura radical .

Tudo isso contribuiu para atual situação em que o Ministro do Interior Thomas de Maizière proibiu o site em 25 de agosto, imediatamente antes das eleições. O Estado invadiu três lugares, incluindo um centro social, em Freiburg, tornando toda a cidade sitiada neste dia. Durante as incursões, eles supostamente encontraram alguns estilingues e paus, que agora estão usando como justificativa adicional para sua propaganda sobre o terrorismo .

Na verdade, Thomas de Maizière está seguindo a agenda da extrema direita e fascistas alemães, bem como os objetivos repressivos do AfD.

Claro que aqueles que mantêm o site não escreveram nada que pudesse oferecer motivos legais para este ataque. Mesmo as plataformas de mídia corporativa oferecem espaço para que as pessoas falem anonimamente – por exemplo, quando membros do Departamento de Estado falam com a imprensa sob condição de anonimato. A desculpa que o Estado está usando para justificar este ataque é declarar que aqueles que mantêm o site de linksunten são uma organização criminosa destinada a destruir a Constituição Alemã. Este é um subterfugio legal. Se for bem sucedido, poderá ser facilmente usado contra outras plataformas, revistas e projetos, fazendo com que todos divulgando literatura e ideias radicais e documentando ativismo e movimentos sociais se tornem alvos desse tipo de repressão e violência estatal. Essa é a mensagem que eles querem enviar, a fim de intimidar toda a população a aceitar que a atual ordem política na Alemanha persistirá até o fim dos tempos.

Esta abordagem agressiva mostra o quão amedrontadas as autoridades estão, que ideias radicais estão se espalhando e tornando-se contagiosas após as demonstrações bem-sucedidas contra a cúpula do G20 em julho. Thomas de Maizière deixou claro o suficiente na sua coletiva de imprensa que essa agressão à Indymedia é uma forma de vingança pelo constrangimento que o Estado sofreu durante a cúpula. Isso também mostra como a retórica de extrema direita e estatista é desonesta sobre a liberdade de expressãona verdade, esses hipócritas usam esse discurso somente para reprimir o discurso dos outros. A solução para os fascistas se organizando não é capacitar o Estado para censurar o discurso, mas mobilizar a população em geral contra os fascistas e contra a infra-estrutura estatal que a extrema direita pretende assumir.

Na Alemanha e em todo o mundo, precisamos de teoria e prática radicais; precisamos de espaços onde as pessoas possam se comunicar anonimamente, de modo a não serem intimidadas pelas ameaças duplas da repressão estatal e da violência fascista de base. Para entender movimentos e lutas sociais, para que nossa noção de história não seja varrida em uma torrente de efemeridades, precisamos de repositórios que preservem as comunicações e as contas. Como um autor uma vez disse, a luta da humanidade contra o poder autoritário é a luta da memória contra o esquecimento. Para lutar contra essa repressão autoritária, agora é mais importante do que nunca divulgar material e ideias revolucionárias em todos os lugares e provocar formas alternativas de se comunicar entre si e com o público em geral em tempos de intensificação da censura e do controle estatal. Quanto mais cada um de nós assumir um papel pessoal nessa tarefa, mais descentralizadas e resilientes serão nossas redes.

Se eles vierem por nós esta noite, você pode ter certeza de que virão por você pela manhã.

O ataque ao Indymedia faz parte de uma ofensiva muito maior contra as estruturas radicais. Em Hamburgo, mais de 30 pessoas estão presas desde o encontro do G20 em julho – apoie aqui! . Quanto ao Indymedia, em breve haverá páginas de apoio também. Nós as publicaremos aqui quando aparecerem.

Postscript animador

Quando visitamos o linksunten.indymedia.org depois do post original deste artigo, nós encontramos a seguinte mensagem, junto com o link para o artigo originalmente publicado no Crimethinc e uma imagem fazendo referência ao efeito Streisand, o processo onde os esforços para censurar informações causa sua difusão ainda mais agressiva. O texto desapareceu deste então, mas comprova que pessoas foram capazes de recobrar o controle do domínio, pelo menos por um período. O original estava em alemão, francês e inglês. Esta é uma tradução em português.

[nota da tradução em português: o texto, conforme publicado em https://enoughisenough14.org/2017/08/26/linksunten-we-will-be-back-soon-greetz-from-streisand/ aponta o texto como partes da Declaração de Independência do Espaço Cibernético, escrita por John Perry Barlow em 1996, declaração completa em inglês aqui: https://www.eff.org/de/cyberspace-independence].

Voltamos logo….

Governos do Mundo Industrial, seus cansados gigantes de carne e aço, eu venho do Ciberespaço, o novo lar da Mente. Em nome do futuro, eu exijo a vocês do passado para nos deixar em paz. Vocês não são bem-vindos entre nós. Vocês não possuem soberania onde nos reunimos.

Não temos um governo eleito, nem mesmo é provável que tenhamos um, portanto eu me dirijo a vocês sem autoridade maior do que aquela com a qual a liberdade em si sempre se manifesta. Declaro o espaço social global que estamos construindo naturalmente independente das tiranias que buscam nos impor. Vocês não tem direito moral de nos reger nem possuem nenhum método de repressão que tenhamos verdadeira razão para temer.

Governos derivam seus poderes justamente do consentimento dos governados. Vocês nem solicitaram ou receberam o nosso. Nós não convidamos vocês. Vocês não nos conhecem, nem conhecem o nosso mundo. O Ciberespaço não se limita às suas fronteiras. Não pensem que vocês podem construí-lo, como se fosse um projeto de construção pública. Vocês não podem. É uma força da natureza, e ela cresce através das nossas ações coletivas.

[….]

Na China, Alemanha, França, Rússia, Singapura, Itália e EUA, vocês estão tentando repelir o vírus da liberdade erguendo postos de guarda nas fronteiras do Ciberespaço. Isso pode manter o contágio afastado por um curto tempo, mas eles não funcionarão em um mundo que em breve será coberto por bits.

[….]

Estas crescentes medidas hostis e coloniais nos colocam na mesma posição dos antigos amantes da liberdade e auto-determinação que tiveram que rejeitar as autoridades do passado, poderes desinformados. Precisamos declarar nossos seres virtuais imunes a sua soberania, mesmo que continuemos a consentir com sua regulação dos nossos corpos. Vamos nos espalhar através do Planeta para que ninguém possa prender nossas ideias.

[….]

Texto originalmente publicado por CrimethInc em https://crimethinc.com/2017/08/25/german-government-shuts-down-indymedia…

Quando as mulheres pararam de programar?

original em inglês
21 de outubro de 2014

 

A ciência da computação moderna é dominada por homens. Mas nem sempre foi assim.

Muitos dos pioneiros da computação – pessoas que programavam nos primeiros computadores digitais – foram mulheres. E por décadas, o número de mulheres que estavam na ciência da computação cresceu mais rápido do que o número de homens. Porém, em 1984, algo mudou. A porcentagem de mulheres nas ciências da computação estagnou e, em seguida, despencou, mesmo que a parcela de mulheres em outros campos técnicos e profissionais tenham continuado a subir.

 

O que aconteceu?

Passamos as últimas semanas tentando responder a essa questão e não encontramos uma resposta simples e clara.

Mas aqui está um bom ponto de partida. A parcela de mulheres nas ciências da computação começou a cair, grosso modo, ao mesmo tempo que os computadores pessoais começaram a aparecer em grandes quantidades nos lares dos Estados Unidos.

Esses primeiros computadores pessoais não eram muito mais do que brinquedos. Era possível jogar pong ou jogos simples de tiro, ou quem sabe processar textos. E esses brinquedos foram vendidos visando totalmente um mercado masculino.

A ideia de que computadores são para meninos tornou-se uma narrativa. Ela virou a história que contamos a nós mesmos sobre a revolução da computação. E ajudou a definir quem eram os geeks e criou a cultura techie.

Filmes como Wierd Science, Revenge of the Nerds e War Games vieram todos nos anos 1980. E o resumo de seus enredos são quase intercambiáveis: um garoto geek esquisito e gênio usa suas super habilidades técnicas para vencer as adversidades e ganhar a garota.

Nos anos 1990, a pesquisadora Jane Margolis entrevistou centenas de estudantes da ciência da computação na Universidade Carniege Mellon, a qual tinha um dos melhores programas de estudo dos EUA. Ela descobriu que as famílias eram muito mais propensas a comprar computadores para os garotos do que para as garotas – mesmo que elas tivessem um forte interesse em computadores.

Quando essas crianças foram para a universidade, isso foi crucial. À medida que os computadores pessoais se tornavam mais comuns, os professores de ciência da computação passaram cada vez mais a assumir que seus estudantes haviam crescido brincando com computadores em casa.

Patricia Ordóñez não tinha um computador em casa, mas ela era muito boa em matemática na escola.

“Minha professora percebeu que eu era muito boa em resolver problemas, então ela pegou eu e outro menino e nos ensinou matemática especial”, disse. “Estudávamos matemática ao invés de ir para o recreio!”.

Então, quando Ordóñez foi para a Universidade Johns Hopkins nos anos 1980, ela descobriu que estudaria ou ciência da computação ou engenharia elétrica. Assim, ela foi à sua primeira aula introdutória e descobriu que a maioria dos seus colegas masculinos estavam muito à frente dela porque haviam crescido brincando com computadores.

“Lembro-me de uma vez em que fiz uma pergunta e o professor parou, me olhou e disse ‘você já deveria saber disso a essa altura’”, lembra. “E então pensei que nunca conseguiria passar”.

Nos anos 1970, isso nunca teria acontecido. Os professores de aulas introdutórias assumiriam que seus estudantes não tinham nenhuma experiência. Mas nos anos 1980, o cenário havia mudado.

Ordóñez fez a matéria mas tirou o primeiro C da sua vida. Ela então desistiu do programa e se formou em línguas estrangeiras. Mais de uma década depois, voltou aos computadores. Encontrou um mentor e então conseguiu seu Ph.D. em ciência da computação. Agora ela é professora assistente dessa disciplina na Universidade de Porto Rico.