Por que as mulheres “desapareceram” dos cursos de computação?

2018-03-07

http://jornal.usp.br/universidade/por-que-as-mulheres-desapareceram-dos-cursos-de-computacao/

Na década de 1970, cerca de 70% dos alunos do curso de Ciências da Computação, no IME, eram mulheres; hoje, 15%

Por Carolina Marins Santos – Editorias: Universidade



Primeira turma de alunos do curso de Bacharelado em Ciências da Computação do IME, em 1974 – Foto: montagem sobre reprodução de fotografia de Inês Homem de Melo

Inicialmente, as imagens acima e ao lado podem parecer simples fotografias antigas de colegas em qualquer curso da USP. Mas ela deixa de ser comum ao descobrir que se trata da primeira turma do Bacharelado em Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME), em São Paulo. A informação pode causar espanto nos dias de hoje, em que a área de tecnologia é ocupada, majoritariamente, por homens. No entanto, essa não era a realidade em 1974, quando a turma se formou. Antes de nomes como Alan Turing, Steve Jobs e Bill Gates, a computação era uma área ocupada por mulheres, sendo elas as criadoras de diversas tecnologias e linguagens de programação. Mas, então, o que aconteceu? Para onde foram essas mulheres?

A primeira turma de Ciências da Computação do IME contava com 20 alunos, sendo 14 mulheres e 6 homens. Ou seja, 70% da turma era composta de mulheres. Já a turma de 2016 contava com 41 alunos, sendo apenas 6 meninas, ou seja, 15%.

A baixa presença feminina também se verifica em cursos de outra unidade da USP. Nos últimos cinco anos, apenas 9% dos alunos formados no curso de Ciências de Computação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos eram mulheres; no Bacharelado em Sistemas de Informação, foram 10% e em Engenharia de Computação, 6%.


Segundo a presidente da comissão de graduação do ICMC, Simone Souza, o baixo número de alunas no curso já vem desde a escolha no vestibular, que tem pouca procura entre as jovens. Na Fuvest, as carreiras em computação do IME e do ICMC são as de menor proporção entre homens e mulheres, juntamente com as engenharias.

Em 1997 (primeiro ano disponível para consulta), a proporção de candidatas inscritas no Bacharelado em Ciências da Computação do IME foi de 26,4%, enquanto em 2017, a proporção foi de 13,66%. Nos anos de 2010 e 2016, o curso teve a menor proporção entre todos da Fuvest.

Estigma masculino

Essa realidade não se restringe à USP. Entre as décadas de 1970 e 1980, houve uma grande inversão nos gêneros da área de tecnologia no mundo todo, mesma época em que surgiu o computador pessoal.

Antes da criação do personal computer (PC), o computador era uma grande máquina de realizar cálculos e processamento de dados, atividades associadas à função de secretariado. A sua chegada na casa das pessoas, por meio de empresas como IBM e Apple, popularizou o uso pessoal das máquinas, principalmente, com a finalidade lúdica dos jogos.

Para a professora do IME Renata Wassermann, foi neste momento que o computador ganhou a “marca” de masculino que o acompanha até hoje.

Quando os jogos começaram a se popularizar, acabou ficando estigmatizado como ‘coisa de menino’. Já no início dos anos 1970, era tudo muito abstrato, ninguém tinha computador em casa, então computação tinha mais a ver com a matemática, e o curso de matemática tinha mais meninas do que o de computação. O curso de computação não era muito ligado à tecnologia porque a gente não tinha computadores pessoais. Isso mudou bastante e agora o curso se refere mais à tecnologia do que à matemática.

Um gráfico produzido por um dos podcasts da National Public Radio (NPR) expõe essa quebra, comparando o número de mulheres em cursos de computação em relação aos cursos de medicina, direito e física nos Estados Unidos.

Segundo o professor e coordenador do curso de Ciência da Computação do IME, Marco Dimas Gubitoso, um fator que pode explicar o grande interesse das mulheres pela graduação na década de 1970 é a sua associação com o curso de Matemática.

A turma do início desta reportagem se constituiu a partir da migração de alunos da licenciatura em Matemática, que sempre teve um histórico maior de presença de mulheres.

Esse foi o caso de Maria Elisabete Bruno Vivian, que se formou na primeira turma de Ciência da Computação do IME e foi professora no mesmo instituto. Desde cedo, ela sabia que queria fazer computação, mas o curso ainda não existia quando se matriculou na licenciatura. A transferência só ocorreu no segundo semestre de 1971. Na época, a área era uma novidade e não se tinha ideia do quão competitiva ela se tornaria.

“A licenciatura é um curso para formar professores e ser professor sempre foi uma carreira majoritariamente feminina até hoje. Por isso, quando criaram o Bacharelado em Ciência da Computação havia muita mulher porque a maioria veio da licenciatura. O cenário mudou quando a carreira ficou interessante. Com muitas vagas e ótimos salários, ela acabou atraindo mais homens”, afirma Maria Elisabete..

Camila Achutti – Foto: montagem sobre fotografia de divulgação de Mastertech

O que os alunos dessa primeira turma não imaginavam, quando fizeram a fotografia, era de que ela seria o estopim para a criação do blog Mulheres na Computação por Camila Achutti, que também se formou no curso de Bacharelado em Ciência da Computação do IME.

Em 2010, quando Camila chegou para a primeira aula de Introdução ao Algoritmo, ela notou que era uma das poucas mulheres na sala. Em 2013, quando se formou, era a única. O choque de estar sozinha numa turma masculina a obrigou a pesquisar referências de mulheres na computação. Foi, então, que encontrou a foto no acervo de relíquias do IME.

Comparando essa foto de 1974 com a foto da minha turma, você vê que caiu muito. Como pode cair de 70% para 3% o número de mulheres na turma? Tem alguma coisa muito errada. Então eu pensei: ‘já que isso existe, eu quero mostrar para todo mundo. E toda vez que uma menina digitar Mulheres na Computação ou na Tecnologia vai aparecer alguma coisa’. E esse foi meu primeiro ato empreendedor, tudo por causa dessa foto.

Hoje, Camila dirige duas startups e é conhecida por lutar pela inserção feminina na área da tecnologia.

Essa inversão de realidade causou espanto também em Inês Homem de Melo, ex-aluna e professora no IME. Durante os 15 anos em que ficou na USP, a professora assistiu à predominância feminina no curso até atingir um equilíbrio entre os gêneros, mas jamais imaginou que o número se inverteria.

Inês Homem de Melo – Foto: montagem sobre fotografia de Inês Homem de Melo

“Eu trabalhei na USP, depois fui para uma fabricante de hardwares e softwares e meu último emprego, onde me aposentei, foi em um banco. Em todos esses lugares, era equilibrado o número de homens e mulheres, não havia a predominância de homens igual havia na engenharia. Não sei o que houve para diminuir tanto assim.”

Falta incentivo

Um estudo realizado na Southeastern Louisiana University, nos Estados Unidos, buscou investigar por que o número de estudantes mulheres em ciências da computação da universidade tinha diminuído. A conclusão do estudo, que pode ser encontrado no Journal of Computing Sciences in Colleges, mostra que as meninas são menos estimuladas às carreiras de tecnologia.

Propagandas midiáticas, a educação escolar e a própria família têm influência na criação do estereótipo de que homens são melhores na área de exatas, enquanto mulheres se dão melhor nas humanas. A falta de representação de mulheres na área também é um fator fundamental para repelir as meninas dos cursos de tecnologia.

“Quando você fala de computação, a primeira imagem que vem à cabeça é do homem nerd que programa desde os cinco anos e criou uma grande empresa aos 18, e isso não é verdade”, conta Camila.

“Existem muitas mulheres que participaram da história da computação, mas, de alguma forma, houve um apagamento dessas mulheres.” Ela lembra que, embora os nomes de homens sejam os mais citados, mulheres como Ada Byron (Lady Lovelace) e Grace Murray Hopper foram fundamentais para a informática…


Uma pesquisa realizada pela Microsoft mostrou que as mulheres tendem a se considerar menos aptas para as carreiras de exatas conforme crescem. As meninas costumam se interessar por tecnologia e exatas, em geral, aos 11 anos, mas aos 15 elas começam a desistir. As razões, segundo a pesquisa, são: ausência de modelos femininos na área, falta de confiança na equidade entre homens e mulheres para exatas e a ausência de contato com cálculo e programação antes da faculdade.

Camila sentiu essa falta de contato maior com as exatas já no primeiro dia de aula, quando notou que todos os alunos sabiam o que era algoritmo e já tinham uma noção básica de lógica de programação, enquanto, para ela, aquilo era tudo novidade. “Eu virei o patinho feio da sala, a burra. Comecei a me questionar do por quê estava ali.”

Anos depois de ter encontrado a fotografia, a ex-aluna do IME trabalha para desmistificar a computação como atividade exclusivamente masculina. A proposta do blog Mulheres na Computação é incentivar, discutir e difundir assuntos relacionados a tecnologia e empreendedorismo sob a ótica de jovens mulheres.

Por meio de cursos e workshops, a equipe do blog leva programação, lógica, cálculo, internet das coisas, entre outros temas, para as meninas. A intenção, segundo Camila, é acabar com a ideia de que tecnologia é difícil e tarefa de gênios.

Para ela, pequenas atitudes podem contribuir para atrair as mulheres de volta para a área. “Aos homens, cabe o papel de ‘evangelizar’, não deixar que o amigo faça piadas contra a colega de profissão, e quando uma menina perguntar o que ele faz, explicar de fato e não dizer que é algo difícil que ela não entende. E, às meninas, cabe refletir se aquela sensação de que não é para elas a área, é de fato verdade ou uma ideia que foi imposta a elas.”


Professora integrou equipe que projetou e construiu o primeiro computador do Brasil

slide

Considerado o primeiro computador totalmente desenvolvido e construído no Brasil, o Patinho Feio, como ficou conhecida a máquina, foi fruto de um projeto da Escola Politécnica (Poli) da USP, coordenado pelo professor Antônio Hélio Guerra Vieira, ex-reitor da Universidade.

A professora Edith Ranzini foi uma das quatro mulheres que contribuíram com o projeto. Além da criação do computador, ela também foi responsável por implantar o curso de Engenharia Elétrica com ênfase em Computação na Poli.

Ela conta que entre os 360 colegas de sua turma, apenas 12 eram mulheres. Contudo, acredita que fazer parte da minoria nunca foi motivo para ser discriminada ou subjugada. “Não existe essa história de que, pelo fato de ser mulher, uma pessoa é engenheira ou professora de segunda categoria”, defende.

Ranzini passou a integrar o corpo docente da Poli em 1971 e se aposentou em 2003, mas continua contribuindo com a Universidade. Foi presidente da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE) e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC).

Da Assessoria de Imprensa da Poli


Além do trabalho de Camila, outras iniciativas buscam atrair as mulheres para a tecnologia. São projetos como Meninas na Computação, que incentiva o ingresso de jovens sergipanas na ciência da computação, Cunhatã Digital, que visa a atrair mulheres da região amazônica para a tecnologia e, principalmente, o Meninas Digitais, da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), direcionado a alunas do ensino médio e últimos anos do fundamental.

“O Meninas Digitais envolve centenas de meninas, em todo o Brasil, durante o ano todo, em práticas educacionais na computação”, explica a ex-presidente da SBC e ex-embaixadora do Comitê Mulheres da Associação Americana de Computação (ACM), Claudia Bauzer Medeiros.

“A SBC tem atividades regulares iniciadas há 11 anos. Começaram com um evento de um dia, o Women in Information Technology (WIT), que hoje é realizado durante três dias, com atividades de laboratório de programação para meninas, debates e apresentações. Há, além disso, um grupo bastante ativo de docentes e alunas na área de bancos de dados, o Women in dataBases (WomB), que se reúne anualmente durante o Simpósio Brasileiro de Bancos de Dados.”

Para Claudia, a maneira mais eficaz de atrair mais meninas não só para a computação, mas para as carreiras de Ciência e Tecnologia como um todo, é pela educação e esclarecimento desde o ensino fundamental sobre essas áreas. O projeto inspirou uma iniciativa dentro do IME de mesmo nome.

Camila Achutti destaca que incentivar as mulheres para essas carreiras é uma necessidade urgente e que traz apenas benefícios. “Você não precisa ser feminista para concordar comigo, você pode ser só capitalista para notar que essa conta não fecha. Você tem o setor com a maior demanda do mercado e está isolando metade do País. Como continuar desenvolvendo e inovando sem utilizar a mão de obra dessas mulheres?”

Apoie a segunda edição da CriptoFunk

Evento discute privacidade na internet,
direitos digitais e funk na Favela da Maré

A CriptoFunk, evento gratuito que reúne debates, oficinas e festa sobre cuidados físicos, digitais e internet, chega a sua segunda edição em 2019. Prevista para acontecer no dia 14 de setembro, na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, o evento-festa lança nesta semana uma campanha de financiamento colaborativo para sua realização. Para ajudar o evento, basta acessar benfeitoria e doar quantias a partir de R$ 15,00.

A iniciativa é inspirada no movimento global das Criptofestas. Com o lema “Criptografe dados, descriptografe o corpo”, a CriptoFunk busca promover a autonomia e liberdade das pessoas frente à influência das tecnologias em suas vidas. Em um mundo em que a internet ganha cada vez mais centralidade no cotidiano de grande parte da população, as discussões sobre privacidade na internet, algoritmos, direitos humanos e cuidados integrais (físicos, digitais e psicossociais) se tornam cada vez mais urgentes.

“A gente acha muito importante fazer a CriptoFunk no Complexo da Maré, porque traz debates que precisam ser cada vez mais disseminados e democratizados. As questões de liberdade e segurança digitais são muito novas para todo mundo. As soluções para essas questões só podem ser construídas a partir de múltiplos olhares, com uma diversidade de lugares e pessoas envolvidas nesse debate”, ressalta Clara Sacco, cofundadora do data_labe e uma das organizadoras do evento.

A campanha de financiamento recebe apoios até o dia 9 de setembro. Em troca, as(os) apoiadoras/es receberão brindes exclusivos, livros e até uma oficina de segurança digital. A CriptoFunk é um projeto coletivo e independente, formado por integrantes do data_labe, Escola de Ativismo, Intervozes e Coding Rights, e conta com apoio do Observatório de Favelas.

Inscrições abertas para Chamada de Atividades

Neste ano, a programação será construída colaborativamente e a Chamada para Atividades já está no ar. As inscrições vão até o dia 26 de agosto e devem ser feitas seguindo as instruções disponíveis no site: www.criptofunk.org. Podem ser propostas palestras, oficinas, rodas de conversa, exibição de filmes, instalações e performances artísticas, e DJ set de funk para a festa que encerra o evento.

As(os) proponentes poderão optar por uma ajuda de custo no valor de R$ 300,00 no ato da inscrição. As atividades devem dialogar com pelo menos um dos eixos temáticos da CriptoFunk: cuidados integrais (digital, físico, psicossocial); privacidade e direitos digitais; antivigilância; algoritmos e Direitos Humanos; corpo e tecnologias; gênero e tecnologias; raça e tecnologias; favela e tecnologias; ativismo e tecnologias; funk e tecnologias.

[entrevista] Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo

O Portal Planeta Minas Gerais fez uma entrevista conosco em nossa passagem pela CriptoTrem. Confira a entrevista, em duas partes:

Parte 1: Proteção e segurança digital: um convite à militância

Parte 2: Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo


Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo

Que o governo de extrema direita de Jair ‘O Coiso’ Bolsonaro enaltece o fascismo (que não é de esquerda!), a ditadura militar, os cortes na previdência dos trabalhadores e nas modificações das bases educaionais, não é novidade. Mas há ainda muito o que se preocupar. Com um governo repleto de militares, mais dos que os da época da ditadura, uma Polícia Federal que mais se assemelha à Gestapo, o governo esconde que a famigerada lei antiterrorismo que Bolsonaro quer aprovar, criminilarizará os movimenos sociais e todos que resolvam questionar seus direitos. Mas há ainda muito o que se preocupar. A segurança digital, que eu e você, usamos todos os dias quer seja pelas redes sociais ou no google, pode estar em risco.

Nossa equipe conversou com os caras do Coletivo Anarco Tecnológico Mariscotron, durante o evento ‘CriptoTrem 2019’, ocorrido em Belo Horizonte.

P: O ativismo de vocês é na rede (internet) ou vocês possuem um ativismo combativo?
R: Na rede, apenas divulgamos materiais e replicamos notícias. Nossa principal atuação é diretamente com as pessoas que buscam melhorar suas práticas de segurança. Um pouco mais rara é a produção de livros e zines.

P: Vocês se consideram hackers, ativistas digitais ou militantes?
R: Se considerarmos hacker a pessoa que quer entender a fundo como softwares, sistemas e equipamentos funcionam e, caso deseje, faça modificações ou testes, então sim, somos hackers. Trocamos muito conhecimento e também aprendemos a aprender por conta própria. Mas junto a isso, temos que ressaltar nossa posição política: somos anarquistas e estamos construindo o tempo todo formas de aumentar nossa autonomia social. Privacidade e solidariedade precisam andar juntas.

P: O q vocês pensam sobre a importancia ou trabalho da mídia alternativa?
R: A mídia independente sempre ocupou um papel central no ativismo, através da difusão de ideias, chamados para ações, denúncias e reflexões sobre as lutas sociais. Este papel é histórico, e acompanha o advento das novas tecnologias de cada época, desde a imprensa operária no início do século, as rádios livres, e com a Internet iniciativas internacionais e federadas como o Centro de Mídia Independente. De certa forma, também atuamos como mídia independente, pois produzimos, traduzimos e divulgamos materiais focados em tecnopolítica.

P: Vcs acham que a mídia alternativa tem sido hackeada pelo governo ou tem sofrido coação?
R: Por enquanto, não tivemos nenhum relato de ataque cibernético realizado pelo governo brasileiro. O que tem sido mais frequente são as ações de coação, realizadas por grupos de extrema-direita que formam a base social do atual governo. Estes grupos atuam como milícias virtuais em uma guerra psicológica, e visam expor e ameaçar pessoas ligadas a causas consideradas “subversivas” pela ordem neo-fascista que visam
estabelecer. Desde o início do ano, já tivemos alguns casos de pessoas públicas no país, que embora tenham bastante visibilidade, sofreram com ameaças de morte, agressão e linchamentos. Por outro lado, feministas, como Lola Aronovich, já sofrem trollagem e ameaças de morte há muitos anos. Imaginamos que pessoas que atuam com mídia alternativa a nível local também poderão sofrer com este tipo de coação.
Aqui, apenas um exemplo do que pode acontecer:
https://www.theguardian.com/technology/2016/jan/07/ukrainian-blackout-hackers-attacked-media-company

P: Hoje a comunicação dos movimentos sociais é quase toda feita pelo whatsapp ou no facebook, vocês acham que é preciso adotar algum mecanismo mais seguro pra comunicação?
R: Sim, este foi um dos motivos que nos levou a constituir o coletivo. Nossa formação enquanto ativistas passou por experiências com os movimentos de mídia alternativa que surgiram após o ano 2000, portanto tivemos contato com uma prática política de apropriação dos meios de comunicação, através do software livre, da criação de sites na Web e da própria gestão de nossos servidores. Portanto, não foi somente a questão da segurança que nos assustou quando vimos tantos ativistas abraçando estas ferramentas corporativas e abandonando as suas próprias, foi uma questão política também. Whatsapp e Facebook são ferramentas corporativas e de uma única empresa, que depois se revelou pivô em escândalos de manipulação de massas, como a Cambridge Analytica ou na propaganda massiva de noticias falsas para alavancar o candidato fascista das últimas eleições.

Em termos de segurança, o Facebook é uma distopia. Coletam todo tipo de informação sobre você e seus relacionamentos, e a comunicação via Messenger não é criptografada, podendo ser espionada pelo governo.

Já a comunicação via Whatsapp é criptografada, entretanto ele é um software de código fechado, sendo impossível saber como foi feita sua implementação, e se existem brechas – propositais ou por acaso – na segurança do aplicativo. Outro aspecto é que muitas pessoas habilitam a cópia automática de todas as suas mensagens para o Google Drive, onde as conversas são armazenadas sem criptografia alguma.

Como alternativas, temos adotado o Signal, que é software livre, e tem mensagens criptografadas por padrão. Além disso, o Signal implementa uma série de medidas de proteção dos seus metadados, quer dizer, com quem você está conversando e quando. Esses dados são muito importantes e muitas vezes suficientes para saber muito sobre os hábitos das pessoas e
as relações entre elas. O Signal garante que só quem tem acesso a esses dados é a própria usuária, enquanto o Whatsapp armazena todos esses dados.

Entretanto este tipo de comunicação é somente um dos aspectos para tornar a nossa vida digital mais segura. Existem outros, o que motivou uma articulação nacional que propôs um conjunto básico de ferramentas, assim como guias e manuais que podem ser encontrados no site autodefesa.org. Recomendamos este site e o material lá publicado como o mínimo a se fazer agora.

Mas é sempre bom lembrar que independente do software que se use, boas práticas de comunicação são o elemento cultural que manterá nosso ativismo funcionando.

P: Com esse governo fascista, repleto de militares, os movimentos sociais e todos que resolvem discordar da posição do Bozo, tem sido hackeados pelo governo. Vocês acham que não só a militancia, mas todos devem se proteger?
R: Pelos ambientes em que atuamos, costumamos falar sobre os riscos de perseguição política, mas os impactos da vigilância afetam a todas as pessoas. Parceiras que são vigiadas em relações abusivas, trabalhadoras que têm sua comunicação espionada pelo patrão, seguradoras de saúde que usam seus dados de redes sociais para te precificar, lojas, supermercados e operadoras de cartão de crédito que sabem tudo que você consome, companhias de transporte que sabem todos os trajetos que você faz, aplicativos de relacionamento que sabem com quem você se relaciona e os seus desejos, ou até a receita federal que pode inferir sua renda através da ostentação consumista em redes sociais, todos esses são apenas exemplos dos resultados dessa vigilância massiva. Recomendamos o documentário “Nothing to Hide” que faz uma boa análise nesta perspectiva.

Podemos abordar a questão por outro lado também. Segurança não é simplesmente eu instalar o signal. É uma questão social que envolve muitas pessoas e organizações. Qualquer um que transitar neste mundo, terá que interagir. E nessa interação há constante e, cada vez mais, abundante troca de informações. Assim, teremos muito mais condições de enfrentar os riscos do nosso ativismo num ambiente que promove a cultura de segurança do que num ambiente paranoico. Vejamos o caso do Navegador Tor: se poucas pessoas usam a rede Tor, elas são facilmente identificadas e marcadas como suspeitas. Se muitas pessoas passarem a usar, mesmo sem ser para se protegerem, aquelas pessoas que estão precisando agora de anonimato poderão ter um pouco mais de tranquilidade para fazer o que
precisam.

P: Temos como nos proteger dessa vigilãncia feita pelo governo ou a internet como utilizamos não favorece isso?
R: Antes de tudo, a internet é uma rede de computadores que troca informações. É claro que serviços digitais como facebook ou gmail, construídos por corporações para lucrar em cima das interações das pessoas, são chave para levar a vigilância e o controle para os aspectos mais cotidianos das nossas vidas. Porém, existe vida lá fora. E é sobre isso que falamos em nossas formações: tem muita gente desenvolvendo e lutando por uma internet aberta e que preserve nossa privacidade.

Entretanto, o campo burocrático ou dos serviços públicos têm dependido cada vez mais de sistemas digitais, o que força o cidadão a vincular muitos dados da sua vida pessoal com seu CPF, por exemplo. O seguinte caso é emblemático: a primeira ação de larga escala que os nazistas realizaram foi um censo, processado com ajuda de computadores de IBM. Hoje, todos os governos (democráticos ou não) possuem tantos dados sobre
as pessoas que nem sabem o que fazer com isso. Porém, a gente conhece a História: todos os governos, sejam monarquias ou democracias, tratam seus cidadãos como porcos numa fazenda. Na hora do abate, não há hesitação.

P: No mundo todo o discurso da extrema direita ganhou força, estamos vivendo uma retração da tolerância ideológica ou um tipo de guerra na web?
R: Um misto das duas coisas, com o agravante é que agora a manipulação de massas com propósitos fascistas conta com novas armas: um poder de processamento gigantesco, com dados cedidos voluntariamente ou não de milhões de pessoas. Casos como o da Cambridge Analytica revelam só o início de como este tipo de estratégia terá cada vez mais importância
para os Estados em seus projetos de dominação.

P: Sobre isso ainda, a NSA, CIA e outras agencias de rastreamento do governo, usam a internet para procurar suspeitos. É possível que os movimentos sociais, a imprensa, a sociedade unida pode lutar contra estas armas governamentais?
R: Sim, caso contrário teríamos desistido do coletivo e se escondido no meio do mato! Brincadeiras à parte, acreditamos que o ponto principal é desenvolvermos uma cultura de segurança, o que deve ser um processo coletivo, descentralizado e contínuo. As mudanças que estão vindo por aí só estão começando, e serão muito rápidas. Teremos que reagir
rapidamente, e buscar formas de se apropriar e transformar a tecnologia para construir modos de resistência.

P: O que vocês pensam sobre a efetividade das leis brasileiras q deveriam fornecer segurança e proteção dos dados de usuários da internet (como o marco civil da internet, por ex)
R: As leis podem até ajudar a mitigar alguns pontos da vigilância e invasão de nossa privacidade, não negamos que elas têm algum valor e respeitamos os coletivos que possuem este enfoque mais legalista. Entretanto, nosso foco enquanto um coletivo anarquista é buscar formas de autodefesa, onde por construção as tecnologias ou comportamentos possam nos proteger desta vigilância.

P: Como o usuário comum pode fazer para se proteger e manter seus dados pessoais, opinião, fora do alcance do governo?
R: Alguns dados são exigidos pelo próprio Estado para prover seus serviços, e muitas vezes são vendidos para empresas privadas (como é o caso de dados biométricos utilizados para participar das eleições), ou mesmo vazados por incompetência técnica, como foi revelado recentemente sobre dados do SUS. Outros tipos de dados, como a maioria dos metadados, são
necessários para o próprio funcionamento das comunicações (sem o nome do destinatário, o carteiro não saberia onde deixar a carta). Sobre o que está em nosso controle, podemos utilizar ferramentas que nos ajudam a preservar o nosso anonimato e privacidade. Sobre as opiniões públicas, existe uma linha tênue entre a necessidade de se posicionar e o receio da perseguição, mas não nos cabe fazer esta avaliação, que é algo muito pessoal.

O gerenciamento de identidades pode ser útil nessa situação. Só como um exemplo, temos quatro tipos de identidades que podemos usar para nos expressarmos no mundo: nome civil, pseudônimo(s), heterônimo(s), anônimo.

P: Vocês teriam alguma coisa a dizer sobre a prisão de Julian Assange?
R: É um recado claro para todas que desafiam a ordem estabelecida e um ataque a liberdade de imprensa. Mostra como o “ocidente democrático”, sob comando dos EUA, em conjunto com um Estado vassalo na América Latina podem se unir para perseguir politicamente qualquer um, mesmo aqueles que contam com visibilidade internacional, como é o caso do Assange. Não podemos esquecer de Chelsea Manning, que foi quem forneceu muitos dos documentos para o Wikileaks e que está presa desde 8 de março deste ano. E também temos a prisão recente de Ola Bini no Equador, programador sueco que colaborava com o Wikileaks. São muitos recados em um curto
espaço de tempo para considerarmos apenas coincidência. A criminalização de hackers e jornalistas só vai aumentar.

P: Como os movimentos sociais, ativistas podem fazer pra entrar em contato com vocês?
R: Temos um site: mariscotron.libertar.org, e também um endereço de e-mail org-mariscotron@lists.riseup.net, estes são atualmente nossos canais de comunicação.

O Mariscotron é um coletivo anarquista que promove cultura de segurança. A partir de 2013, com as jornadas de junho e as revelações do caso Snowden sobre a vigilância massiva das agências de inteligência americanas, começaram oferecer oficinas sobre comunicação digital segura, e proteção digital.

[entrevista] Proteção e segurança digital: um convite à militância

O Portal Planeta Minas Gerais fez uma entrevista conosco em nossa passagem pela CriptoTrem. Confira a entrevista, em duas partes:

Parte 1: Proteção e segurança digital: um convite à militância

Parte 2: Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo


Proteção e segurança digital: um convite à militância

Edward Snowden, Julian Assange, Ola Bini, Deep Web, Facebook, Censura e rastreamento digital, estão mais presentes no nosso cotidiano do que você imagina. A era da perseguição digital já chegou. Será que estamos prontos para mantermos nossa privacidade intacta?

Em 12 de abril, a Polícia Metropolitana de Londres deteve  Julian Assange, cofundador do Wikileaks, depois que o Equador cassou o asilo diplomático. Assange enfrenta a acusação de um grave crime contra a segurança dos computadores: a publicação, no site Wikileaks, de centenas de milhares de documentos classificados pelo Departamento de Defesa como secretos, e por montar uma rede de fontes que revelaram ao mundo farsas e manipulações governamentais. Diante deste quadro de incertezas, de espionagens na rede, que cresce cada vez mais a necessidade de nos protegermos, de mantermos segura nossas identidades e privacidade.

O Mariscotron é um coletivo anarquista que promove cultura de segurança. Entrevistamos os caras sobre diversos assuntos, tão oportunos neste momento que vivemos.

Planeta: Como surgiu o coletivo?

M@: Muitas de nós já praticavam formas mais seguras de comunicação e organização, herança da participação em organizações como Centro de Mídia Independente, Movimento Passe Livre e rádios livres. Porém, a partir de 2013, com as jornadas de junho e as revelações de Snowden sobre a vigilância massiva das agências de inteligência gringas, começamos a pesquisar sobre estes assuntos com mais dedicação e profundidade. Em 2014, oferecemos nossa primeira oficina sobre comunicação digital segura, marcando o início do coletivo.

Planeta: Quais são os objetivos ou causas que vocês defendem?

M@:Nosso objetivo principal é a promoção de uma Cultura de Segurança. Para isso, oferecemos oficinas e formações, assim como traduzimos informações técnicas e de metodologia para o português. Temos como horizonte político uma sociedade anarquista, onde a autonomia, a livre associação, a cooperação formem o senso comum e não a exceção. Portanto estes princípios nos orientam politicamente em nossa relação com a tecnologia, mas também nas relações que estabelecemos com os coletivos e pessoas com as quais colaboramos, visando apoiá-las em seus objetivos próprios de transformação social.

Durante o último ano, quando ocorreram as eleições para presidente, resultando na eleição democrática de Bolsonaro, começamos a repensar nossa forma de atuação. Em nossas discussões internas e reflexões, levando em consideração tanto o contexto global e o nacional, assim como as nossas capacidades como coletivo, chegamos a uma estratégia chamada Segurança de Pés Descalços. Esse é um plano de longo prazo que visa elevar o nível geral da segurança ativista através da descentralização do cuidado, da autonomia do aprendizado e da continuidade das formações. O elemento chave dessa estratégia é uma figura que chamados de “agente multiplicador”. Essa pessoa será acompanhada durante meses numa formação de boas práticas de segurança e técnicas básicas de privacidade replicando esse conhecimento no seu próprio coletivo ou organização de
atuação. Queremos assim, pensando nos próximos 10 anos, que os grupos não dependam dos coletivos formadores (especialistas) e caminhem o melhor possível com suas próprias pernas dentro do seu contexto específico.

Planeta: de que forma vocês podem ajudar os coletivos, os movimentos sociais e a militância?

M@:De maneira geral, atuamos através de oficinas e formações para organizações ativistas. A partir desse ano, com a estratégia da Segurança de Pés Descalços, colocaremos nosso esforço na formação de agentes multiplicadores e na divulgação dessa visão estratégica. Como não estamos em Belo Horizonte, seria muito difícil e custoso fazer o acompanhamento de agentes em BH. Porém, nossa presença aqui (com uma conversa na CriptoTrem) auxilia no contato entre ativistas da cidade e na formação dessa rede difusa que aproxima movimentos sociais e formadores em segurança por todo o Brasil.

Planeta: Como os movimentos sociais podem fazer pra se protegerem?

A primeira coisa é entenderem a importância do cuidado (de maneira ampla) para a manutenção e ampliação do seu espaço de trabalho. Isso desperta a consciência para a necessidade de dedicar tempo e energia para uma mudança de comportamento, tanto pessoal como da organização.Isso é o principal.

Temos, todas nós, que adotar boas práticas de segurança para criar um ambiente geral mais seguro, é isto que chamamos
de desenvolver uma Cultura de Segurança. Só por último é que vamos olhar para softwares ou técnicas específicas. Para entendermos a necessidade de mudança, precisamos ter fundamentos e princípios sólidos que embasem nossa ação. Assim, caso precisemos trocar de aplicativo ou adotar uma
nova prática, isso acontecerá de forma espontânea e determinada.

Planeta: Expliquem melhor sobre o programa segurança de pés descalços

M@: Gostaríamos de ressaltar o plano estratégico da Segurança de Pés Descalços. Estamos apostando na construção coletiva deste plano, e esperamos contar com o apoio de outros coletivos em uma ação coordenada, visando elevar o nível de segurança de forma descentralizada e autônoma. A versão atual deste plano pode ser lida em: https://spd.libertar.org, e ele está aberto para colaboração.

[fim da entrevista]

Auto proteção e segurança digital: governo X privacidade do usuário

Os direitos fundamentais sobrepuseram-se, assim, às estratégias de concorrência entre nações e as telecomunicações se revelaram como ambiente no qual a tensão entre a violação e a garantia desses direitos se coloca em plano global.

Com o empurrãozinho que nos foi dado pelo caso Snowden, conseguimos fortalecer nossa luta em defesa da garantia de direitos fundamentais, o que resultou na aprovação do Marco Civil da Internet no Brasil e na realização do NET Mundial, primeiro encontro mundial e multissetorial tendo como agenda central o debate sobre o futuro de uma nova governança da Internet. Defender esse exilado contra a perseguição que vem sofrendo atualmente é reafirmar como prioridade a salvaguarda desses direitos.

Fonte: com informações do Coletivo Mariscotron/El País/Carta Capital

Desenvolvedor e Defensor de Direitos Digitais é Preso no Equador

Ola Bini, um desenvolvedor de software livre e ativista pelos direitos digitais e a privacidade foi detido no Equador.

Sua detenção está sendo justificada pela policia pelo fato de ele “viajar muito e ler livros técnicos”, dentre esses livros, citam o fato de ele possuir o livro “Cyber Guerra” de Richard A. Clarke. Por outro lado, de acordo com um boletim emitido pelo Procurador-Geral , Ola teria sido detido para que fossem investigadas atividades ilegais relacionada ao Wikileaks.

A criminalização de pessoas que desenvolvem ferramentas para aumentar a privacidade e que se dedicam para proteger o direito a privacidade é algo muito preocupante. A privacidade é um direito básico de todo o ser humano.

Abaixo está a declaração do Centro de Autonomia Digital (original em Inglês e Espanhol), organização onde Bini atua como Diretor Técnico.

As pessoas que trabalham com software livre e privacidade não devem ser criminalizadas

Não há nada criminoso em querer privacidade.

Ola Bini, @olabini, uma reconhecida figura no âmbito do software livre mundial e defensor dos direitos digitais e a privacidade na Internet, foi detido no aeroporto de Quito, Equador às 15h20 de 11 de abril de 2019. Até onde se sabe não há acusações ou provas contra ele. Não foi permitido a seus advogados se reunirem com ele durante todo o dia de ontem. Às 18h00 anunciaram que o iriam mover para a Unidade de Flagrante da Promotoria no centro norte de Quito para colher testemunhos no âmbitode uma investigação da Promotoria provincial de Pichincha.

Bini, cidadão sueco residente em Equador  não fala fluentemente espanhol e requer um interprete para dar qualquer declaração. O prenderam ilegalmente, sem acusações conhecidas, sem comunicar às autoridades de seu país (Suécia) como estabelecem os protocolos internacionais.

Bini é o Diretor Técnico do Centro de Autonomia Digital e havia postado em sua conta no twitter que iria viajar ao Japão para um curso de artes marciais, uma viagem planejada há mais de um mês. Viu os comentários da ministra do Interior e tweetou: “María Paula Romo, a Ministra do Interior do Equador, esta manhã realizou uma coletiva de imprensa, onde foi alegado que hackers russos vivem no Equador e que uma pessoa próxima ao Wikileaks também vive no país.”

Bini tem sido um programador de software durante toda sua vida. Começou a programar com 8 anos e criou duas linguagens de programação. Tem sido um ativista de privacidade e software livre por muito tempo. Em 2010, a Computerworld na Suécia o nomeou como o 6º melhor desenvolvedor do país.

Já contribuiu com:

  • loke
  • Seph
  • JesCov
  • JRuby
  • JtestR
  • Yecht
  • JvYAMLb
  • JvYAML-gem
  • RbYAML
  • Ribs
  • ActiveRecord-JDBC
  • Jatha
  • Xample
  • JOpenSSL

CRIPTOCERRADO – Amanhã em Brasília

Acontece amanhã em Brasília a CriptoCerrado! Serão 10h de programação em quatro ambientes com muitas atividades simultâneas. Já está no ar a programação completa!

A Criptofesta Cerrado oferecerá uma série de palestras e oficinas para iniciantes e iniciados sobre o atual contexto de cultura, economia e política baseada em dados e em vigilância massiva. Haverá oficinas sobre cultura de segurança e proteção, bem como formações práticas.

13 formas de agressão online contra mulheres

25/11/2018
Por Luchadoras, Social TIC e APC

https://www.genderit.org

Acesso ou controle não autorizado
Ataques ou restrição de acesso a contas ou dispositivos de uma pessoa

Monitoramento e stalking
Vigilância constante da vida online de uma pessoa

Ameaças
Conteúdos violentos, lascivos ou agressivos que manifestam uma intenção de dano a alguém, a seus entes queridos ou bens

Difamação
Desqualificação da trajetória, credibilidade ou imagem pública de uma pessoa através da exposição de informação falsa, manipulada ou fora de contexto

Omissões po parte de atores com poder regulatório
Falta de interesse, reconhecimento, ação ou menosprezo por parte de autoridades, intermediários da internet, instituições ou comunidades que podem regural, solucionar ou sancionar violência online

Controle e manipualção da informação
Roubo, obtenção, perda de controle ou modificação de informação de forma não consentida

Expressões discriminatórias
Discurso contra mulheres e pessoas não binárias que reflete padrões culturais machistas baseados em papéis tradicionais de gênero

Difusão de informação pessoal ou íntima
Compartilhar ou publicar sem consentimento algum tipo de informação, dados ou informação privada que afete uma pessoa

Abuso sexual relacionado com a tecnologia
Exercício de poder sobre uma pessoa a partir da exploração sexual de sua imagem e/ou corpo contra sua vontade, pode implicar a obtenção de um benefício lucrativou ou de outro tipo

Suplantação ou roubo de identidade
Uso ou falsificação da identidade de uma pessoa sem seu consentimento

Assédio
Condutas de caráter reiterado e não solicitado que acabam sendo incômodas, perturbadoras ou intimidantes

Extorsão
Obrigar um pessoa a seguir a vontade ou petições de um terceiro por possuir algo de valor para ela, como no caso de informação pessoal

Ataques a canais de expressão
Táticas ou ações deliberadas para tirar ou deixar fora de circulação canais de comunicação ou expressão de uma pessoa ou grupo

Depois de dois anos seguindo e acompanhando mulheres que vivem o que chamamos de violência online, violência cibernática ou violência digital, Luchadoras, Social TIC organizações sociais sediadas no México, e a Asociación por el Progreso de las Comunicaçciones, elaboraram a seguinte tipologia que dá conta de 13 formas distintas de agressão contra as mulheres através das tecnologias.

Quatro considerações básicas

1. O que entendemos por “violência online” são na realidade práticas muito diversas que através da vigilancia, do controle ou da manipulação da tua informação ou de teus canais de comunicação tem como objetivo causar dano.
2. Não está desconectada da violencia machista que vivemos nas ruas, nas casas, nas camas; quer dizer não existe uma separação online/offline e é tão real como qualquer outra forma de violencia. É um mesmo velho sistema que usa novas plataformas.
3. Em um mesmo caso de violencia online podem se manifestar uma série de agressões distintas. Nessa tipologia decidimos nomear todas elas.
4. Por si mesmas, nenhuma agressão é mais grave que outras e tampoucou são necesssariamente uma escala que vai de menor a maior, mesmo que em alguns casos sim elas podem ser interdependentes ou uma engendrar a outra.

Por exemplo: Alguém rouba teu celular. Encontra fotos intimas em teus arquivos. Te escrevem uma mensagem pedindo dinheiro em troca de não publicá-las. Não cedes. Esse alguém decide colocá-las online e te marca. As pessoas começam a te insultar e a te dizer que estavas pedindo. Denuncias e nao recebes uma boa resposta de parte das plataformas nem das autoridades.

O que foi que aconteceu?

– Alguém rouba teu celular -> Acesso nao autorizado
– Encontra fotos intímas nos teus arquivos -> Controle da informação
– Te escrevem uma mensagem pedindo dinheiro em troca de não publicá-las -> Extorsão
– Não cedes. Esse alguém decide colocá-las online e te marca. -> Difusão de informação intima sem consentimento.
– As pessoas começam a te insultar e a te dizer que estavas pedindo. -> Expressões discriminatórias.
– Denuncias e nao recebes uma boa resposta de parte das plataformas nem das autoridades. -> Omissão por parte de atores com poder regulatório.

Para a elaboração dessa tipologia, foram revisados os tipos de ataques online contra as mulheres enunciados por organizações como Asociación para el Progreso de las Comunicaciones, Article 19, Cimac, Digital Rights Foundation, Women’s Media Center, e Women Action Media, assim como de processos como Coming Back to Tech de Tactical Tech Collective.

Oportunidade de Estágio em Projetos de Código Aberto

A Outreachy está com inscrições abertas para o programa de estágios de inverno. São vagas nas áreas de programação, experiência de usuário (UX), documentação, ilustração e design gráfico ou data science. As vagas são em projetos de Software Livre e de Código Aberto, e são oferecidas preferencialmente para mulheres (cis ou trans), homens trans, e pessoas genderqueer.

Os estágios tem duração de três meses e as posições de trabalho são completamente remotas. O valor da bolsa é de 5.500,00 doláres e um adicional de 500,00 doláres para custos de viagem. Interessadxs tem até o final de outubro para aplicarem nesse endereço.

 

Atenção usuários de PGP: Novas vulnerabilidades exigem que você aja agora

do site da EFF.

13 de maio de 2018

Um grupo de pesquisadores de segurança europeu publicou um aviso sobre um conjunto de vulnerabilidades que afetam usuários de PGP e S/MIME. A EFF está em contato com essa equipe de pesquisa e pode confirmar que essas vulnerabilidades colocam um risco imediato para as pessoas que usam essas ferramentas de comunicação por email, incluindo a potencial exposição do conteúdo de mensagens antigas.

Todos os detalhes serão publicados em um artigo na próxima terça-feira às 7:00 AM UTC. Para reduzir os riscos no curto prazo, nós e a equipe de pesquisa acordamos em alertar a comunidade de usuários de PGP antes da sua publicação.

Nosso conselho, que é o mesmo que o da equipe, é desabilitar ou desinstalar imediatamente as ferramentas que descriptografam automaticamente os emails criptografados com PGP. Até que as falhas descritas no artigo sejam melhor compreendidas e corrigidas, usuários devem conseguir formas alternativas de comunicação segura de ponta-a-ponta, tais como Signal, e parar temporariamente de enviar, e especialmente de ler, emails criptografados com PGP.

Por favor, use os seguintes guias para saber como desabilitar temporariamente os plugins de PGP em:

Thunderbird com Enigmail

Apple Mail com GPGTools

Outlook com Gpg4win

Esses passos buscam ser paliativos temporários e conservadores do ponto de vista da segurança até que os riscos imediatos dessas falhas passem e sejam mitigados.

Lançaremos uma explicação e análise mais detalhada quando mais informações estiveram disponíveis publicamente.

Perspectivas Anarquistas sobre a Neutralidade da Net: O Cerceamento Digital dos Bens Comuns

 

Na semana passada, a FCC (Comissão Federal de Comunicações, da sigla em inglês) votou para revogar a Neutralidade da Net nos EUA. Sem essas proteções, as corporações privadas – e a classe que as controla – pode moldar qual a informação fica disponível para as pessoas de acordo com seus próprios interesses. Imagina um futuro onde o conteúdo amplamente disponível na internet é comparável com o que você podia assistir na televisão aberta nos anos 1980! Hoje, os fluxos de informação na internet são quase idênticos com os nossos processos de pensamento coletivo: eles determinam o que podemos discutir, o que podemos imaginar. Mas o problema fundamental é que a internet sempre foi controlada pelo governo e pelas corporações.

É muito representativo que o setor privado tenha transformado de forma progressiva uma estrutura de desenvolvimento militar comparativamente mais horizontal em algo menos participativo e igualitário. Infelizmente, não existe uma alternativa anarquista, uma internet das pessoas para construir em cima; essa é a única. Socialistas de Estado aproveitaram essa oportunidade para promover a nacionalização da internet, argumentando que essa é uma oportunidade de formular uma visão de um futuro melhor. Mas se não queremos que a classe capitalista controle nossa comunicação, o controle pelo Estado não solucionará o problema: afinal é o Estado que está pondo as corporações no controle, e os modelos existentes de controle estatal (pense na China) são tão opressivos quanto os corporativos. Devemos tomar passos pragmáticos para defender nossos direitos no contexto atual. Porém, um quadro baseado em direitos mas que atribui ao Estado um papel de árbitro de questões sociais nunca irá garantir nossa liberdade. Se queremos uma visão verdadeiramente libertária de um futuro melhor, temos que pensar para muito além disso.

Uma abordagem anarquista deve começar por rejeitar a falsa dicotomia entre poder das corporações e poder estatal. A partir daí, precisamos ousar sonhar com formas descentralizadas de infraestrutura que sejam resilientes contra controle de cima para baixo. A internet, na sua forma atual, é de fato indispensável para participar da sociedade; mas isso não significa que devemos tomar a forma atual da internet – ou da sociedade – como o único ou o melhor modelo que existe. Até porque, foram nossos recursos, extraídos de nós na forma de impostos, mão de obra e inovação que ajudaram a criar ambos. O que seríamos capazes de criar se nossos esforços não fossem moldados pelas amarras do Estado e os imperativos do mercado?

Nosso objetivo de longo prazo deveria ser retomar as estruturas que ajudamos a construir, mas teremos que transformá-las para que funcionem de acordo com os nossos interesses – e também podemos começar a experimentar com estruturas paralelas agora mesmo. Até reformistas devem reconhecer que fazer isso é praticamente a única forma de ganhar influência sobre aqueles que hoje controlam os meios pelos quais nos comunicamos.

A tecnologia nunca é neutra. É sempre política: sempre expressa e reforça as dinâmicas de poder e aspirações que estiveram lá desde o início. Se engenheirxs e programadorxs não constroem a partir de um enfoque político com a intenção explícita de criar relações igualitárias, seu trabalho sempre será usado para concentrar poder e oprimir as pessoas.

Para saber mais sobre as limitações codificadas no cerne do mundo digital pelo capitalismo, leia Desertando a Utopia Digital. Para detalhes sobre o fim da Neutralidade da Net e as alternativas radicais ao controle corporativo, leia o seguinte texto de Willian Budington, também entrevistado pelo audiozine The Final Straw.

Texto original em crimethinc.com/2017/12/15/anarchist-per…