Boas Práticas Para Reuniões – Parte 2: Reuniões Online

Em alguns casos as reuniões presenciais não são possíveis. Hoje em dia todo mundo anda sem tempo mas ainda assim querendo tocar as coisas. Também às vezes sentimos necessidade de nos organizar com pessoas de outras cidades ou até de outros países. Nada disso precisa ser um empecilho para fazer as coisas acontecerem! É aí que aparecem as reuniões online.

Se reuniões presenciais feitas na espontaneidade costumam ser uma perda de tempo, quando tentamos fazer isso à distância então vira um desastre. Como abordamos anteriormente, qualquer tipo de reunião irá se beneficiar de uma comunicação clara e focada. Geralmente, acordos prévios tornam as coisas muito mais fáceis e agradáveis.

Reuniões online são muito parecidas com as presenciais, por isso achamos necessário falar  antes sobre como fazer uma boa reunião e, acima de tudo, quais cuidados são necessários para evitar efeitos nocivos decorrentes das diferenças de poder entre pessoas tomando decisões.

Valores

Quando falamos de tecnologia, nós no mar1sc0tron pensamos sempre em política também. Por isso, além de funcionar, a ferramenta usada para comunicação numa reunião deve ter o máximo possível as características políticas que desejamos para o mundo:

  1. Conhecimento livre: os softwares livres de código aberto (site, programa, aplicativo de celular) permitem sua auditoria, uso, aprendizado e modificação comunitários. Encorajamos o uso dessa categoria de softwares, apesar de não termos o conhecimento técnico para avaliá-los.
  2. Privacidade: a maior parte das nossas comunicações são corriqueiras. Porém, a privacidade é um valor fundamental para a liberdade dos “de baixo” e circunstancial para a dos “de cima”. Para isso, precisamos de criptografia de ponta-a-ponta (de preferência, com a chave privada sob nosso controle).
  3. Descentralidade: os protocolos privados (google, facebook, whatsapp, telegram, inclusive signal) estão transformando a internet num conjunto de locais exclusivos e controlados. Promovemos o uso de protocolos federados para que as ferramentas possam se espalhar, se metamorfosear de diferentes jeitos e distribuir o poder de controle da rede.
  4. Desenvolvimento autônomo e não-lucrativo: apoiamos os coletivos que desenvolvem tecnologia e incentivamos o uso das ferramentas criadas por eles. Queremos uma sociedade que promova a autonomia coletiva e individual.

Parte técnica: problemas e soluções

Dito isso, vamos aos softwares. Em nossas reuniões, usamos um meio para expressar de maneira ágil nossas ideias (áudio), um para anotá-las (bloco de notas online, um pad) e um outro ainda para celebrar-desaprovar de maneira rápida (bate-papo por texto).

Áudio:
– Temos usado o Jitsi versão web por ser prático. Ele possui todos esses meios que listamos como necessários para uma reunião à distância: áudio (e vídeo), bloco de notas online e bate-papo por texto. Dizem que confiar na criptografia realizada no navegador não é muito aconselhável e deixá-la nas mãos do servidor é pior ainda. Esse é o caso do jitsi, então, olho!
– Uma opção mais rápida para áudio-conferência, mas que ainda não testamos é o bom e velho Mumble. Esse software está disponível nos repositórios do Debian. O ideal seria que uma pessoa ficasse de servidor e as outras se conectassem diretamente a ela. A criptografia é de ponta-a-ponta, acontece no seu computador e sua chave privada fica sob seu controle. Essa opção é menos prática, porém mais segura.

Bloco de notas online e Bate-Papo por texto:
– Há muitos anos usamos o bloco de notas online (também conhecidos como pads) para a criação coletiva e sincronizada de textos. Sugerimos o serviço do pad.riseup.net. Para uma opção mais enfeitada tem o cryptopad.fr. Os pads, além de anotações, também possuem embutido o bate-papo por texto (chat), ambos na mesma janela, o que é muito prático.

Acordos e formas de agir

Da mesma forma que em uma reunião presencial, é bastante atravancador ficar cortando a fala das outras pessoas, pulando entre os temas da pauta ou falando de outros assuntos, chegar tarde, etc. Então, além de tudo o que acabamos de descrever, segue alguns acordos prévios que podem ser MUITO úteis para uma reunião online.

  • Início: certifiquem-se que todo mundo está online e que os softwares na ponta estão funcionando. Um ponto importante é checar suas configurações de áudio e vídeos (se utlizados), estão funcionando antes de iniciar a reunião. São bem comuns os problemas com fontes e microfones em reuniões, portanto teste antes!  Como o pad é um software leve, é bem provável que todo mundo consiga fazê-lo funcionar bem (a não ser que o servidor esteja com algum problema). Assim, uma pessoa de cada vez comenta pelo chat como estão as coisas para ela: quem você ouve, como está sua conexão, quais são suas dificuldades ou restrições (alguém pode dizer que está ouvindo todo mundo, mas que não irá falar pois está no trabalho ou numa sala com mais gente).
  • Pautas e a Ata: como todo mundo pode alterar as anotações do pad, montem as pautas e anotem ao vivo o que considerarem necessário. A criação é coletiva e neste caso não é preciso alguém com a função específica de anotar. Marque como tachado algo que você considera desnecessário ou errado. Comente ou altere frases da ata diretamente no pad (evite comentar no chat e ficar esperando que alguém anote o que você quer dizer).
  • Inscrição: Use a primeira linha do pad (ou qualquer lugar no pad designado para isso) para anotar quem quer falar. Ao longo do tempo, isso será uma linha com diversos nomes. É importante ter isso registrado para saber quem está falando muito ou pouco. Será um dos sinais da distribuição do poder de expressão durante a reunião.
    • Marque no chat quando começar sua fala, assim todo mundo pode verificar se está recebendo o seu áudio.
    • Ao terminar, avise claramente que terminou (verbalmente ou pelo chat). Se faltou dizer alguma coisa, espere até sua próxima vez.
    • Marque como tachado quem já falou.
  • Aprovação/desaprovação: o chat pode ser usado para mostrar aprovação (é comum usar a expressão “+1” para dizer que você está se somando àquela ideia) e desaprovação (“-1” ou “desaprovo”).
  • Chat: O chat torna as reuniões muito mais dinâmicas. Outras funções mágicas do chat:
    • pedir silenciosamente pelo chat alguma explicação ou aprofundamento durante uma fala sem ter que interromper a pessoa;
    • anotar quando uma fala começa (escrevendo o nome da pessoa) para saber quanto tempo ela está usando na sua vez. Toda entrada no chat fica marcada com a data e a hora;
    • avise quando você terminou de falar. Combinem uma palavra-chave para isso, como “ponto” ou “terminei”;
    • avisar silenciosamente (pelo chat) quando alguém passou do seu tempo de fala;
    • avisar caso não esteja mais ouvindo alguém;
    • avisar caso tenha caído da áudio-conferência.

Ferramentas adicionais:

  • Tabela para votação qualitativa: ajudar a resolver questões de prioridade. Dá para usar o serviço de votação do crabgrass ou o ethercalc.org.
  • Cronômetro: marcar tempo de fala
  • Sinal sonoro delicado para indicar o fim de uma fala: sininho ou um beep suave
  • Bloco de notas online: para fazer a ata conjuntamente → pad.riseup.net

Na próxima publicação, traremos algumas reflexões sobre consenso.

Boas Práticas Para Reuniões – Parte 1: Distribuição de Poder e Boas práticas em geral

Continuando com a série de publicações relacionadas com boas práticas de organização, desta vez compartilhamos algumas reflexões sobre como organizar reuniões levando em conta valores como descentralização de poder, cultura de segurança e autonomia.

Boas práticas de comunicação são um elemento cultural que ajuda a manter o nosso ativismo funcionando, e as reuniões são atividades que possuem papel central na organização dos grupos para o cumprimento de seus objetivos.

Desta forma, lançaremos três publicações que visam compartilhar um compilado de reflexões e práticas associadas com reuniões. Nosso foco são as reuniões online, porém, vamos iniciar falando sobre acordos gerais, com alguns apontamentos sobre relações de poder e boas práticas.

As práticas não são “regras” estritas que precisam ser seguidas em toda reunião, mas um apanhado de orientações que podemos considerar interessantes (ou não) para o nosso contexto. É importante observar se estamos de fato as colocando em prática, e se elas estão tornando nossas reuniões melhores, tendo em vista os valores que prezamos e os objetivos que queremos alcançar.


Distribuição de Poder e Boas práticas em geral

São muitos os fatores que vão influenciar no bom andamento de uma reunião. É muito importante prestarmos atenção no seguinte: em muitos casos as reuniões são um dos poucos momentos de interação entre o grupo todo, e as dinâmicas da reunião vão influenciar bastante no andamento do grupo posteriormente.

Antes de tudo, como o poder está distribuído?

Não é possível falarmos de uma reunião de pessoas sem ter atenção para as relações de poder envolvidas. Aqui, nosso valor fundamental é a horizontalidade.Ou seja, buscamos garantir espaço de fala para todo mundo e uma escuta que some de nossas potências. Seja entre amigos, na família ou no trabalho, as relações de poder visíveis e invisíveis determinarão o andamento da reunião e o seu resultado, independente de quão brilhante for a sua ideia ou descontente você estiver.

Entre os poderes visíveis, temos:
Tom de fala, forma de olhar, gestos: agressividade e firmeza numa posição são comumente considerados sinais positivos numa disputa. Porém, se o objetivo da conversa não é ver quem está certo ou errado, então isso pode ser sinal de abuso ou desespero (ou os dois). Se esse é “o seu jeito”, preste atenção para ver se ele ajuda o grupo.
Arranjo físico do espaço: alguém na cabeceira de uma mesa comprida consegue ver todo mundo, ao passo que quem estiver na lateral terá sempre um pequeno número de pessoas no seu campo de visão. Diferenças de altura também podem acarretar diferenças de poder. Fontes de ruído assim como de luz podem atrapalhar a comunicação.
Retórica: por mais “visível”/audível que uma fala seja, existem diversas sutilezas no ato discursivo que buscam convencer os outros, independente dos argumentos serem bons ou ruins. Ser um argumento bom ou não também é uma questão retórica, então é preciso ter atenção na linha de raciocínio para não cair em (ou usar) argumentos de autoridade, apelos emocionais infundados, chantagens, entre outros.
Acesso a ferramentas: internet, celular, transporte, dinheiro, materiais gráficos, etc.

E entre os poderes invisíveis, temos:
Privilégios: qualquer sociedade autoritária como a nossa está estruturada de maneira a forçar (independente da sua vontade) que algumas pessoas tenham mais poder que outras. As diferenças entre as pessoas não precisam ser vistas como diferenças inerentes de poder. Elas podem ser formas complementares de poder. Entretanto, isso ainda é utópico, então preste atenção em quem está na sua reunião e o que a sociedade te concede e o que ela te tira.
Estados psíquicos: a energia e a vontade de cada pessoa no momento da reunião são sempre diferentes. Isso influencia, por exemplo, na paciência e na empolgação individual, resultando sempre num efeito coletivo.
Influência no grupo: cada par de pessoas tem um nível diferente de afinidade entre si.
Acesso a informações: algumas pessoas sabem mais sobre o que está acontecendo do que outras.
Tempo disponível: o tempo que cada pessoa tem para se dedicar ao grupo, à pauta da reunião previamente, e o tempo que dispõe para assumir tarefas. Isso pode ser visível ou invisível.
Capital cultural: o conhecimento e as habilidades intelectuais acumulados que cada pessoa tem e que lhe conferem poder e status social.

É claro que outros poderes podem ainda estar envolvidos, mas foram esses que conseguimos pensar até agora

O que queremos com nossa reunião?

Com as dinâmicas de poder mais ou menos claras, agora podemos começar a pensar onde queremos chegar com uma reunião.

Nossa intenção é fazer a reunião acontecer bem e, ao mesmo tempo, diminuir as dinâmicas nocivas de poder.

Tendo a autonomia como valor-guia, constantemente estaremos oscilando entre dois objetivos: tomar decisões e entender as pessoas (encaminhar ações e discutir com atenção). Muitas vezes, uma coisa leva à outra, mas nem sempre. Buscar que a reunião seja encaminhativa a qualquer custo, na maioria das vezes, leva ao abuso de poder ou ao afastamento. Por outro lado, já presenciamos diversas reuniões extremamente enfadonhas quando uma pessoa ou outra usava seu tempo de fala (e extrapolava-o) para contar seus problemas pessoais e angústias. Não é isso que queremos.

Lembre-se: a reunião é apenas um instante no acontecimento social, na vida do grupo. Ela não deve ser o único nem o derradeiro momento de conversa. Garanta que existam outros espaços para trocas.

Boas práticas em geral

Para que qualquer reunião tenha mais chances de acontecer bem, alguns pontos parecem ser fundamentais. Lembre-se que a reunião é um acontecimento coletivo e não um lugar para ficar famoso ou ver suas ideias serem aceitas.

PREPARANDO-SE: dicas para fazer antes de ir pra reunião:

  • Pontualidade: busque chegar um pouco mais cedo para trocar ideia, saber das novidades, arrumar o espaço. Reserve a comunicação à distância (email, w-ap, chat) para MARCAR encontros e não o contrário.
  • Equipamentos: se você precisa de alguma coisa para que a reunião aconteça (cadeiras, comida, fone de ouvido, etc.), prepare com antecedência.
  • Local: ajude a preparar o local para que todo mundo se sinta à vontade. Tenha comida, banheiro e almofadas ou cadeiras disponíveis. Um local protegido das intempéries (sol, chuva, vento, ruído) também é importante.
  • Pauta: pense no que você quer levar para a reunião e estude. Se possível, compartilhe previamente seus pontos de interesse com o grupo. Reflita antecipadamente sobre os pontos alheios também.
  • Comunicação: todas as pessoas que querem que a reunião aconteça podem buscar saber se todo mundo foi informado. Basta que uma pessoa fique responsável pelo chamado, mas nada impede que você pergunte e informe as outras.

Logo que as pessoas estiverem reunidas, escolham uma pessoa para servir de coordenadora. A coordenação tem o papel de manter a engrenagem azeitada. Ela está ali para fazer os acordos coletivos acontecerem. Escolher uma coordenadora é uma tentativa de evitar que as pessoas se sintam perseguidas quando quebram as regras da reunião sem perceber. Escolham também uma anotadora. Ela fará a ata e trará de volta algum ponto já acordado para esclarecimento, se for necessário.

REALIZANDO: durante a reunião, fique atenta aos acordos e às dinâmicas de poder:

  • Celular: ao chegar no local, desligue seu celular. Caso precise mantê-lo ligado, avise as outras pessoas e coloque-o no modo silencioso. Se a reunião for tratar de assuntos sensíveis ou sigilosos, desligue o aparelho e coloque-o junto com os outros dentro de uma bolsa LONGE da reunião (em outro cômodo, dentro de um carro, etc.).
  • Pauta: são os pontos a serem discutidos na reunião. Prepare-os antecipadamente. Garanta que todo mundo sabe antecipadamente do que será tratado na reunião. Tentem chegar num consenso sobre a prioridade das pautas. Essa discussão é importante para saber o quê e por quê cada ponto da pauta é importante para as pessoas. Se essa discussão encalhar, faça uma votação qualitativa: cada pessoa dá sua opinião sobre os níveis de prioridades das pautas entre si e, quando todo mundo tiver terminado, a soma dos níveis definirá a ordem das pautas (ver a seção FERRAMENTAS).
  • Término: decidam um bom horário para terminar a reunião. (CONTROVÉRSIA: Caso uma decisão seja urgente e não se tenha chegado a um consenso, lembre-se da diversidade de táticas: ajude no que quer ajudar, não atrapalhe naquilo que não é do seu interesse. Não “assine” sua ação como sendo do grupo. Unicamente nesses casos, é melhor agir, mesmo que sem unidade, do que culpar os outros por não ter feito o que você queria. Deixe aberto ao grupo a possibilidade de te apoiar nas consequências ou não.)
  • Pausa (opcional): caso haja bastante tempo (mais de 2h), programe uma pausa.
  • Disposição das pessoas no espaço: evite desnível de altura e distância. O círculo tem se mostrado, há muitas décadas (talvez milhares de anos), ideal para isso. Caso queiram experimentar, vejam se, ao retirar um pouco de poder de quem tem, a dinâmica do grupo melhora: disponham as pessoas mais confiantes, com algum privilégio ou que estão mais à vontade para falar em público atrás ou abaixo das outras.
  • Inscrição: Uma das formas de se inscrever para discutir algum ponto da pauta é levantando a mão para que as outras pessoas vejam que você tem algo a dizer. Você então espera a pessoa que está com a palavra terminar e então começa. Se houver muita gente, a coordenadora pode ficar responsável por “fazer uma fila” anotando as pessoas inscritas por ordem de chegada. É comum que aqueles que querem discutir a presente pauta tenham prioridade sobre quem quer mudar para um próximo ponto ou voltar em algo que já foi discutido. Esse acordo deve ficar claro no início da reunião e a coordenadora poderá interromper quando notar que alguém está mudando de pauta. É importante lembrar que a inscrição ativa (“quero me inscrever agora”) favorece as pessoas que já têm poder em público. Uma dinâmica para tentar mudar isso é usar a inscrição passiva: todas as pessoas estão inscritas de início, ou seja, todo mundo tem a oportunidade de dar sua opinião se quiser. Nesse caso, é imporatnte controlar o tempo além de que todos saibam o que está sendo feito: juntando opiniões, elencando prós de uma proposta, ou os contras, ou dando informes, etc. Sempre que alguém sair do que está sendo feito naquele momento, a coordenadora deve poder interromper e retornar ao fio da meada. Claro que numa assembleia, a inscrição passiva é impraticável, o que mostra para que tipo de dinâmica de poder ela foi feita (meia dúzia de oradores carismáticos convencendo e comandando a massa).
  • Fala: esse é o nosso principal meio de expressão durante uma reunião. Gestos e olhares também são importantes, eles completam o que está sendo dito. É pela fala que nosso poder se manifesta ativamente (os privilégios e outras formas de poder também estarão presentes mais passivamente, porém serão tão efetivas quanto a fala. Fique atenta).
    • Sempre que necessário, a coordenadora pode lembrar as pessoas a serem mais claras e concisas. Se você achar que precisa de mais tempo para esclarecer seu ponto, avise e sugira você mesma um tempo para que a coordenadora te ajude a terminar.
    • Evite interromper a fala de alguém: isso atrapalha o raciocínio dela e mina sua expressão de poder. Combinem previamente que a coordenadora seja a única a poder interromper a fala de alguém.
    • Quando for sua vez de falar, fique dentro da pauta. Fale o que desejar sobre AQUELE ponto específico. Evite falar de outros pontos da pauta ou de assuntos fora da pauta.
  • Ata: a ata é o resumo da reunião e contém o que foi decidido. Cada encaminhamento deve ter uma responsável e uma data para realização, quando possível. A anotadora enviará a ata para todas as pessoas relacionadas à reunião (presentes ou não). É importante que a ata fique aberta para melhorias e correções.

Uma vez tendo se tornado um hábito, essas dicas farão das suas reuniões momentos muito mais agradáveis, pois você sabe, mais ou menos, o que vai encontrar.

Como escolher um mensageiro “seguro”

Este texto é uma tradução levemente modificada do que saiu aqui, escrito por blacklight447.

Nos interessa muito a metade inicial sobre definições, pois ela ajuda a pensar e questionar quais características e comportamentos precisamos de um aplicativo mensageiro.

Dois comentários anônimos ao fim da postagem nos fizeram lembrar que a opinião que segue na segunda parte é do autor original. Ela nos parece válida como exemplo. Porém, tendo entendido os porquês expostos no início do texto, nós faremos nossa própria análise sobre qual aplicativo irá nos servir e em qual contexto (ou nenhum aplicativo!).

Encorajamos você a pensar seriamente no seu modelo de ameaças e escolher o que lhe serve. Não aceite opiniões como fatos, e boa leitura.


Outro dia, uma pessoa perguntou no nosso fórum sobre as diferenças entre os mensageiros seguros (os programas de bate-papo).  Em vez de listar uma cacetada de diferentes softwares e suas características, resolvi começar definindo “seguro” e outros termos chave no contexto dos mensageiros instantâneos (chats). Isso porque um mensageiro que é “seguro” para mim não vira automaticamente “seguro” para outra pessoa.

Primeiro, precisamos desconstruir o significado de segurança. Que tal começar com os conceitos confidencialidade, integridade e disponibilidade?

  • Confidencialidade significa que somente as partes desejadas podem ler as mensagens.
  • Integridade significa ter certeza de que sua mensagem não foi alterada antes de chegar no destino, o que muita gente não da muita importância.
  • Disponibilidade significa garantir que todas as partes tenham acesso adequado às suas mensagens.

Se te interessar, leia mais sobre isso aqui.

Então, se a gente quer um mensageiro “seguro”, no que será que devemos ficar ligadas?

A resposta são quatro coisas: segurança, privacidade, anonimato e usabilidade.

  • Segurança: Em resumo, segurança significa que apenas os destinatários receberam sua mensagem, que eles conseguem acessá-la adequadamente e que a mensagem não foi modificada por terceiros.
  • Privacidade: é ter o conteúdo de suas comunicações protegido de terceiros, mas não necessariamente as identidades de quem está se comunicando. Por exemplo, duas colegas no espaço de trabalho vão para uma outra sala para conversar entre si: você sabe quem está lá e que elas estão conversando, mas não sabe o que estão dizendo. Essa conversa é privada.
  • Anonimato: significa proteger as identidades das partes em comunicação, mas não necessariamente o conteúdo. Por exemplo, um delator anônimo vaza um documento para o público; o centeúdo do vazamento deixou de ser privado e passou para o conhecimento público, mas não sabemos quem o vazou; o delator é anônimo.
  • Usabilidade: diz respeito à facilidade de usar alguma coisa; geralmente é o elemento mais menosprezado da mensageria segura. Se um aplicativo é muito difícil ou frustrante de usar, muitas pessoas simplesmente optarão por alternativas menos seguras, porém mais fáceis. A baixa usabilidade é a razão pela qual a criptografia PGP de email nunca foi adotada pelas massas: é um saco usá-la. Roger Dingledine, do Projeto Tor, escreveu um artigo bem legal sobre por que a usabilidade é tão importante em sistemas seguros.

Agora que já entendemos as facetas mais importantes da mensageria segura, temos que falar sobre modelo de ameaças.

Modelo de ameaças é algo que você tem que fazer antes de escolher seu mensageiro, porque não existe nenhum mensageiro glorioso que funcionará universalmente para todo mundo. Parece que poucas pessoas entendem qual é o seu modelo de ameaças. Para começar, aqui vão algumas perguntas que você pode fazer a si mesma:

  • O que estou protegendo? Vocês está protegendo o conteúdo da mensagem? Sua identidade? Os metadados? Sua localização? Talvez uma combinação de tudo isso?
  • De quem estou me protegendo? Você está se protegendo das companhias de propaganda? de governos? De um parceiro abusador? Hackers? Cada um desses oponentes possui suas próprias fraquezas e potências; um governo tem muita grana, mas uma hacker pode quebrar a lei.
  • Qual será o impacto caso a coisa que estou protegendo caia nas mãos do meu adversário? Os mesageiros que melhor protegem o conteúdo e os metadados costumam ser os menos conveniente de usar. Então, considere quanta usabilidade você está disposta a sacrificar para proteger essas coisas. Você está protegendo suas paixões secretas ou é uma situação de vida ou morte?

Beleza, já pensei no meu modelo de ameaças. E agora?

Tendo construído seu modelo de ameaças, e sabendo o que você está protegendo e de quem, podemos começar a dar uma olhada nos mensageiros que estão por aí. Vejamos dois exemplos:

Signal: é um mensageiro de código aberto, criptografado de ponta a ponta e privado. É bem fácil de usar e não exige que o usuário saiba nada sobre criptografia ou segurança em geral. Ele fornece privacidade em mensagens e chamadas através da criptografia de ponta a ponta, e porque ele é tão ridículo de usar, você terá menos trabalho em migrar seus contatos de aplicativo. Entretanto, já que o Signal necessita de um número de telefone para registrar-se ele não é , e nunca disse que era, anônimo.

Briar: é um mensageiro com criptografia de ponta a ponta que utiliza a rede Tor para se manter anônimo. Por funcionar como um mensageiro de par a par (ou seja, não existem servidores entre os usuários distribuindo suas mensagens) dentro da rede Tor, seus metadados e o conteúdo de suas mensagens estão protegidos. O problema da natureza par a par do Briar é que ambas as partes devem estar online ao mesmo tempo para mandar mensagens, o que diminui a usabilidade.

Agora, se você ou um contato seu acredita que é alvo das agências de inteligência do governo, o Briar seria uma opção melhor para manter sua identidade segura. Isso acontece porque, mesmo que o Briar não seja o serviço mais fácil, ele não irá expor os metadados que poderão revelar quem, quando ou mesmo se você alguma vez interagiu com outro usuário.

Entretanto, se você é um cidadão comum conversando com amizades ou com a família sobre assuntos tranquilos, o Signal provavelmente seria mais apropriado. As conversas no Signal são criptografadas de ponta a ponta e privadas, mas dado que ele usa seu número de telefone é possível identificar os contatos do usuário e outros metadados. O principal benefício do Signal é que ele é extremamente fácil de usar, é essencialmente a mesma experiência do WhatsApp. Assim, usuários menos preocupados com privacidade/segurança tem mais chance de adotá-lo.

Tá, então temos um modelo de ameaças e sabemos a diferença entre segurança, privacidade, anonimato e usabilidade. Como vou saber qual mensageiro fornece o quê?

Boa pergunta! Existem algumas coisas que se pode ficar de olho quando for escolher um mensageiro:

  • Criptografia de ponta a ponta: isso significa que somente a pessoa para quem você enviou a mensagem pode ler o conteúdo da mensagem.
  • Código aberto: isso significa que o código fonte do programa está disponível para ser lido, permitindo àquelas pessoas com tempo e conhecimento verificarem se ele é tão seguro quanto se diz. (Bonus points if reproducible builds are available. This means you can copy the source code, follow the build instructions and end up with an exact copy of the application distributed by the developers. This allows us to ensure that the app in use is actually the same as the source code.)
  • Par a par: em inglês P2P ou peer-to-peer significa que suas mensagens vão diretamente para o dispositivo dos seus contatos e que não existem terceiros envolvidos no tráfico de dados. Cuidado: embora isso signifique que nenhuma entidade central esteja coletando seus metadados e mensagens num servidor, se você não proteger seu IP qualquer pessoa que estiver olhando sua conexão poderá ver com quem você conversa e por quanto tempo, potencialmente quebrando seu anonimato. Como foi mencionado acima, o Briar consegue resolver isso usando a rede Tor.
  • Metadados: são todas as informações sobre uma mensagem exceto o seu conteúdo. Alguns exemplos de metadados são: remetente, destinatário, hora de envio e localização de quem enviou. Daria pra descrever os metadados como “registros de atividade“. Dependendo do seu modelo de ameaças, pode ser importante garantir que certos metadados não estejam disponíveis para o seu adversário.
  • Informações de registro: quais informações são pedidas a você antes de usar um serviço? Quando o número de telefone é requisitado, como no Signal, será difícil manter o anonimato porque o número geralmente está associado com a sua identidade real. Se o anonimato é parte do seu modelo de ameaças, procure um mensageiro com o mínimo possível de informações de registro.

Lembre-se que às vezes é melhor usar uma solução não tão perfeita caso ela ofereça uma usabiliade melhor, pois isso te ajudará a manter teus contatos longe de alternativas menos seguras. Por exemplo, levar a sua família para o Signal, ou mesmo para o WhatsApp é um passo enorme em relação a SMS, pois as mensagens de telefone são enviadas em texto puro. Claro, as mensagens enviadas pelo zap não são anônimas, os metadados estarão disponíveis, porém essa mudança já um grande passo em termos de segurança, e você estará melhor com ela do que tentando migrar todo mundo para o mensageiro mega-ultra-seguro-anônimo, que é um pé no saco de usar, e que ao ver que é difícil as pessoas acabarão voltando para a SMS. Como disse Voltaire:

O perfeito é inimigo do bom.

CripTainha: Criptofesta em Florianópolis no dia 6 de Julho

CriptoFesta em Florianópolis – SC no dia 06/07/19, com chamado de atividades aberto até 22/06/19.

Com a Criptainha queremos construir um encontro aberto, fraterno e divertido para a troca de experiências sobre tecnologia, política, criptografia, segurança holística, software livre, arte e cultura e o que mais cair na rede.

O evento acontecerá em um sábado, 06/07, no Instituto Arco-Íris que fica no centro, em local muito próximo do terminal central e da rodoviária. É um local muito especial para a cena politico-cultural e de defesa de direito humanos na cidade.

Convidamos a tod@s que inscrevam suas atividades até o dia 22/06. Nosso site e o evento em si estão em construção, e ao longo dos próximos dias vamos lançando mais informações.

Clique no enlace para ler o texto completo do chamado.

[entrevista] Proteção e segurança digital: um convite à militância

O Portal Planeta Minas Gerais fez uma entrevista conosco em nossa passagem pela CriptoTrem. Confira a entrevista, em duas partes:

Parte 1: Proteção e segurança digital: um convite à militância

Parte 2: Bolsonaro, censura, perseguição digital e auto segurança em tempos de fascismo


Proteção e segurança digital: um convite à militância

Edward Snowden, Julian Assange, Ola Bini, Deep Web, Facebook, Censura e rastreamento digital, estão mais presentes no nosso cotidiano do que você imagina. A era da perseguição digital já chegou. Será que estamos prontos para mantermos nossa privacidade intacta?

Em 12 de abril, a Polícia Metropolitana de Londres deteve  Julian Assange, cofundador do Wikileaks, depois que o Equador cassou o asilo diplomático. Assange enfrenta a acusação de um grave crime contra a segurança dos computadores: a publicação, no site Wikileaks, de centenas de milhares de documentos classificados pelo Departamento de Defesa como secretos, e por montar uma rede de fontes que revelaram ao mundo farsas e manipulações governamentais. Diante deste quadro de incertezas, de espionagens na rede, que cresce cada vez mais a necessidade de nos protegermos, de mantermos segura nossas identidades e privacidade.

O Mariscotron é um coletivo anarquista que promove cultura de segurança. Entrevistamos os caras sobre diversos assuntos, tão oportunos neste momento que vivemos.

Planeta: Como surgiu o coletivo?

M@: Muitas de nós já praticavam formas mais seguras de comunicação e organização, herança da participação em organizações como Centro de Mídia Independente, Movimento Passe Livre e rádios livres. Porém, a partir de 2013, com as jornadas de junho e as revelações de Snowden sobre a vigilância massiva das agências de inteligência gringas, começamos a pesquisar sobre estes assuntos com mais dedicação e profundidade. Em 2014, oferecemos nossa primeira oficina sobre comunicação digital segura, marcando o início do coletivo.

Planeta: Quais são os objetivos ou causas que vocês defendem?

M@:Nosso objetivo principal é a promoção de uma Cultura de Segurança. Para isso, oferecemos oficinas e formações, assim como traduzimos informações técnicas e de metodologia para o português. Temos como horizonte político uma sociedade anarquista, onde a autonomia, a livre associação, a cooperação formem o senso comum e não a exceção. Portanto estes princípios nos orientam politicamente em nossa relação com a tecnologia, mas também nas relações que estabelecemos com os coletivos e pessoas com as quais colaboramos, visando apoiá-las em seus objetivos próprios de transformação social.

Durante o último ano, quando ocorreram as eleições para presidente, resultando na eleição democrática de Bolsonaro, começamos a repensar nossa forma de atuação. Em nossas discussões internas e reflexões, levando em consideração tanto o contexto global e o nacional, assim como as nossas capacidades como coletivo, chegamos a uma estratégia chamada Segurança de Pés Descalços. Esse é um plano de longo prazo que visa elevar o nível geral da segurança ativista através da descentralização do cuidado, da autonomia do aprendizado e da continuidade das formações. O elemento chave dessa estratégia é uma figura que chamados de “agente multiplicador”. Essa pessoa será acompanhada durante meses numa formação de boas práticas de segurança e técnicas básicas de privacidade replicando esse conhecimento no seu próprio coletivo ou organização de
atuação. Queremos assim, pensando nos próximos 10 anos, que os grupos não dependam dos coletivos formadores (especialistas) e caminhem o melhor possível com suas próprias pernas dentro do seu contexto específico.

Planeta: de que forma vocês podem ajudar os coletivos, os movimentos sociais e a militância?

M@:De maneira geral, atuamos através de oficinas e formações para organizações ativistas. A partir desse ano, com a estratégia da Segurança de Pés Descalços, colocaremos nosso esforço na formação de agentes multiplicadores e na divulgação dessa visão estratégica. Como não estamos em Belo Horizonte, seria muito difícil e custoso fazer o acompanhamento de agentes em BH. Porém, nossa presença aqui (com uma conversa na CriptoTrem) auxilia no contato entre ativistas da cidade e na formação dessa rede difusa que aproxima movimentos sociais e formadores em segurança por todo o Brasil.

Planeta: Como os movimentos sociais podem fazer pra se protegerem?

A primeira coisa é entenderem a importância do cuidado (de maneira ampla) para a manutenção e ampliação do seu espaço de trabalho. Isso desperta a consciência para a necessidade de dedicar tempo e energia para uma mudança de comportamento, tanto pessoal como da organização.Isso é o principal.

Temos, todas nós, que adotar boas práticas de segurança para criar um ambiente geral mais seguro, é isto que chamamos
de desenvolver uma Cultura de Segurança. Só por último é que vamos olhar para softwares ou técnicas específicas. Para entendermos a necessidade de mudança, precisamos ter fundamentos e princípios sólidos que embasem nossa ação. Assim, caso precisemos trocar de aplicativo ou adotar uma
nova prática, isso acontecerá de forma espontânea e determinada.

Planeta: Expliquem melhor sobre o programa segurança de pés descalços

M@: Gostaríamos de ressaltar o plano estratégico da Segurança de Pés Descalços. Estamos apostando na construção coletiva deste plano, e esperamos contar com o apoio de outros coletivos em uma ação coordenada, visando elevar o nível de segurança de forma descentralizada e autônoma. A versão atual deste plano pode ser lida em: https://spd.libertar.org, e ele está aberto para colaboração.

[fim da entrevista]

Auto proteção e segurança digital: governo X privacidade do usuário

Os direitos fundamentais sobrepuseram-se, assim, às estratégias de concorrência entre nações e as telecomunicações se revelaram como ambiente no qual a tensão entre a violação e a garantia desses direitos se coloca em plano global.

Com o empurrãozinho que nos foi dado pelo caso Snowden, conseguimos fortalecer nossa luta em defesa da garantia de direitos fundamentais, o que resultou na aprovação do Marco Civil da Internet no Brasil e na realização do NET Mundial, primeiro encontro mundial e multissetorial tendo como agenda central o debate sobre o futuro de uma nova governança da Internet. Defender esse exilado contra a perseguição que vem sofrendo atualmente é reafirmar como prioridade a salvaguarda desses direitos.

Fonte: com informações do Coletivo Mariscotron/El País/Carta Capital

Segurança de Pé Descalço

O texto da estratégia está na versão 0.3. Sugira, pergunte,colabore!

Segurança de Pé Descalço

É um Plano Estratégico de Segurança baseado nos princípios de prevenção e autonomia que visa criar e manter as condições para a ação. A “Promoção da Segurança” inicia de forma federada, com coletivos que fomentam a cultura de segurança realizando treinamentos de agentes inseridos ou vinculados nos grupos que estão tensionando a transformação social. Com o passar do tempo, buscamos que ela se descentralize, tornando-se uma cultura de segurança que se sustente, se propague e se reinvente. Essa estratégia é aberta como um código aberto em software; usamos “bibliotecas” públicas e testadas, toda informação contida no treinamento pode ser encontrada por outros meios, e incentivamos o compartilhamento e a ramificação desse “código”.

Por que uma Estratégia de Segurança?

Há vários motivos para adotarmos uma postura estratégica com respeito à segurança:
– Atuação coordenada: com um plano sólido e público, buscamos formar uma coalisão com os coletivos que fomentam a cultura de segurança, para termos mais alcance e força.
– Objetivo de longo prazo: ter um horizonte político nos ajuda a manter a firmeza de nossas convicções e funciona como uma referência nos momentos de confusão externa ou conflito interno.
– Etapas para a verificação: tendo bolado uma série de etapas e um cronograma geral (onde diferentes táticas serão usadas, dependendo do contexto local), podemos então verificar o andamento do plano, fazer avaliações e, caso necessário, modificar ou redefinir objetivamente alguma parte.

Por que uma Segurança de Pés Descalços?

Após a Revolução Chinesa, o governo socialista desenvolveu uma política pública chamada de Medicina de Pés de Descalços, cujo objetivo era ampliar o atendimento de saúde para as massas, especialmente em regiões rurais. A principal estratégia foi a formação de agentes de saúde camponeses, que recebiam um treinamento básico voltado para a medicina preventiva e atuavam em suas comunidades.

A comparação entre segurança e saúde nos parece muito acertada. Segurança, assim como a saúde, é um assunto social. Um coletivo ou um movimento ativista atento a questões de segurança é muito mais saudável e, consequentemente, pode agir de forma mais efetiva e assim perdurar. Tendo sempre em mente que nossos princípios são a prevenção e a autonomia, a política da Médicos de Pés Descalços nos serviu de inspiração para delinear as características gerais deste plano, com a crucial diferença que não se trata de uma política pública promovida pelo Estado: nós cuidaremos da nossa segurança!

Diferente de oficinas esporádicas realizadas por coletivos especialistas em tecnologia para o público geral ou para organizações como um todo, esta estratégia busca sanar as seguintes necessidades:
– Continuidade: treinamento contínuo e acompanhamento.
– Dedicação: um ou alguns poucos integrantes da organização alvo (agentes multiplicadores) receberão uma formação básica focada
– Confiança: o agente multiplicador é integrante do grupo e a implementação de boas práticas e softwares acontecerá entre as pessoas da organização alvo, sem nenhum elemento externo.
– Descentralização: os coletivos formadores treinarão agentes multiplicadores que, por sua vez, treinarão suas organizações. Eventualmente, agentes montarão novos coletivos formadores.

OBJETIVOS:

Os objetivos da Segurança de Pé Descalço são os seguintes:
  • Curto prazo: ampliar nossa privacidade, descentralizar o cuidado
    + Coletivos tech: formação básica de agentes multiplicadores; oficinas direcionadas para assuntos e necessidades específicas reais
    + agentes: implementação de medidas imediatas de privacidade
  • Médio prazo: elevação do nível geral de segurança para que a resistência seja mais efetiva
    + Coletivos tech: formação continuada de agentes multiplicadores (com revisão das medidas de atenção primária anteriores e atualização); construção de infraestrutura tecnológica (com documentação); treinamento em relação à nova infraestrutura
    + agentes: formação de outros agentes usando sua própria formação básica; agentes criam coletivos tech; fomento de boas práticas de segurança; alfabetização digital
  • Longo prazo: transformação social radical e autonomia
    + Coletivos tech: os antigos coletivos saem de cena (abandonam sua posição de poder); novos coletivos assumem a infraestrutura; manutenção da infraestrutura criada; criação de infraestrutura
    + agentes: formação de outros agentes; agentes criam coletivos tech; fomento de boas práticas de segurança; alfabetização digital

Quem vai participar nessa estratégia?

Estão previstos três atores:

Agente Multiplicador: é uma pessoa que atua em uma organização ou coletivo que visa a transformação social. Essa pessoa já possui interesse em segurança e tem buscado orientação para o desenvolvimento de uma cultura de segurança no seu contexto. Não faz sentido ter que convencer um agente multiplicador da importância de medidas de segurança (isso não é tarefa do coletivo formador!).
Esta estratégia busca – e o seu sucesso depende – que os agentes multiplicadores sejam responsáveis pela “atenção primária” em segurança dentro do grupo que já atuam (e nunca o Coletivo Formador). Isso, pelos seguintes motivos: 1) o agente conhece melhor o seu contexto de ativismo, 2) o agente é uma pessoa de confiança no seu coletivo, 3) o agente pode mais facilmente ser destituído caso abuse do seu poder, 4) com o auxílio do agente multiplicador, o coletivo ativista matém a confidencialidade dos seus planos e vulnerabilidades.

Agente Vinculado: é uma pessoa com as seguintes características: não participa de um coletivo ativista; não participa de um coletivo formador; possui interesse e conhecimento sobre cultura de segurança; possui vínculo direto com um coletivo ativista. Pessoas assim já existem e já fazem um trabalho semelhante ao que apontamos para o coletivo formador. O agente vinculado é um híbrido entre multiplicador e formador. Atenção aqui!

Coletivo Formador: é um coletivo que se dedica e possui conhecimentos sobre segurança, seja da informação, de operação, ou holística. Desde as revelações de Snowden (e coincidentemente no Brasil, as jornadas de junho de 2013, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016), apareceram coletivos dedicados à segurança mais focados na comunicação digital. De fato, esse conhecimento tem crescido em importância devido à sua pervasividade. Porém, é o agente multiplicador, sendo a interface com o coletivo ativista, que vai definir o tipo de auxílio necessário. A coalisão entre coletivos formadores visada por esta estratégia permitirá repassar demandas de agentes multiplicadores entre coletivos (como possivelmente o helpdesk do Autodefesa.org pode funcionar).

EIXOS:

O plano Segurança de Pé Descalço começará através da formação descentralizada de agentes multiplicadores. Esses agentes, de preferência, já atuam em coletivos pela transformaçao social e receberão um treinamento básico em tecnopolítica e segurança. Seu campo de atuação será a implementação imediata de medidas de privacidade e o fomento de boas práticas de segurança no seu contexto de trabalho. Assim, os coletivos tech envolvidos com segurança e os agentes formados contribuirão com esta estratégia em dois eixos:

Formação:

    Treinamento básico em soluções técnicas e em tecnopolítica (justificativa ideológica e base ética). Também são relevantes os conhecimentos legais e as particularidades sócio-ambientais do local de atuação do agente multiplicador.
    Para que a formação tenha um bom aproveitamento e o vínculo dure, sugerimos o seguinte perfil para o agente:
    – pessoas próximas do coletivo tech formador (no sentido de afinidade), para que a conversa já possua significância entre as partes (ou seja, evitar de ter que convencer a pessoa de que segurança é importante)
    – menos é mais, focar em pessoas verdadeiramente interessadas e que já começaram a caminhar por conta própria (ou seja, evitar dispender tempo precioso de uma formação com várias pessoas que apenas “curtem” o assunto)
    – pessoas que já estejam atuando em coletivos por transformação social, para que o efeito multiplicador aconteça de fato (o coletivo tech formador não trabalhará diretamente dentro do coletivo ou organização do agente).
    
    Nada impede que coletivos visem outros perfis, porém, por experiência própria, nesse caso o melhor seria uma oficina ou palestra  de apresentação.

Atenção Primária em Segurança: 

    Implementação de medidas emergenciais e gerais de privacidade e fomento de boas práticas de segurança individual e coletiva. Ver seção Treinamento Básico.

Treinamento Básico:

– 5 ações imediatas para a privacidade: senhas fortes, navegador Tor, Signal como IM, email em servidor seguro, criptografia de dispositivo. 
– Data Detox: reduzir sua sombra digital e ter controle do que está exposto.
– Tecnopolítica: valores e bytes, rede de confiança, resistência e existência. Desconstruir o comportamento de consumidor.
– Metodologia da análise estruturada e abrangente de contexto, ameaças, riscos, vulnerabilidades

OPERAÇÃO:

Para que essa estratégia avance, é preciso começar com uma população alvo restrita e buscar atingir uma massa crítica de agentes multiplicadores. Os coletivos iniciais não devem acumular mais poder do que já possuem; pelo contrário, à medida que agentes multiplicam o conhecimento e fomentam práticas, novos coletivos aparecem e dividem a responsabilidade, a pesquisa e a definição das ações, buscando que as decisões sejam tomadas cada vez mais de baixo e de perto. Nunca será demais repetir: a concentração de poder continuada é extremamente nociva para o objetivo final de Autonomia e o projeto deve ser abandonado caso essa concentração persista.

Etapas operacionais:

1) Refinar este Plano Estratégico

    Descrição: debater, pontuar falhas e melhorar. Debater e encontrar desde já mecanismos de proteção contra degringolamento egoico (abuso de poder) por parte dos atores poderosos (os coletivos tech e as pessoas-referência na área de segurança)
    Realização: A primeira versão do texto foi para o blog https://mariscotron.libertar.org no dia 17/12/2018, junto com um chamado para colaboração. Um bloco de notas digital foi criado: https://pad.riseup.net/p/segurancadepedescalco081118-keep O texto foi repassado para grupos virtuais e alguns retornos foram anotados. A versão 0.2 do texto foi subida no bloco de notas no dia 16/01/2019. A versão 0.3, no dia 13/03/2019.
    Prazo: janeiro, fevereiro e março de 2019 (preparação para a reunião descentralizada estratégica da etapa 3)
    
2) Definir, reunir e montar um material básico para a formação
    Descrição: ver seção _Treinamento Básico_
    Realização: A parte emergencial foi tirada de AutoDefesa.org. Um conjunto de boas práticas inicial veio do projeto DataDetox, do Tactical Tech. O coletivo Mariscotron traduziu o livro Segurança Holística e tem usado essa metodologia para análise de segurança. O Mariscotron vem desde 2014 fazendo oficinas onde ressalta o aspecto político da tecnologia e uma parte dessas reflexões já está nos textos publicados no blog. Ver como referência o capítulo “Hackers, Luditas e Jardineiros” do livro Anarquia Viva!, de Uri Gordon.
    – Juntar tudo numa cartilha
    Prazo: primeiro semestre de 2019
3) Campanha SPD
    Descrição: fomentar a adesão da Segurança de Pé Descalço pelos coletivos tech (sem fronteiras!), estabelecer uma agenda e objetivos curtos comuns de campanha; compartilhar contatos e articular rede; montar canal de comunicação; anunciar a formação de agentes multiplicadores para coletivos e organizações pela transformação social. 
    – Precisamos de um material impresso para divulgação!
    Realização: reunião descentralizada estratégica, dia 23/03, cada coletivo tech ou agente puxa a reunião na sua cidade. 
    – Divulgar e anunciar a SPD em eventos tech (criptofestas), reuniões de bairro, redes de resistência, mutirões de apoio; fóruns, listas e grupos na internet
    Prazo: todo o ano de 2019 (possivelmente, estender para 2020)
    
4) Realizar formações e acompanhar agentes
    Descrição: A partir da campanha e dos contatos realizados, a aproximação entre os coletivos tech e os primeiros agentes multiplicadores se dará por afinidade e/ou demanda real de base. Selecionar agentes segundo o perfil pre-estabelecido (ver seção “Eixos”, parte “Formação”).
    Realização: preparar encontros locais com formação rápida (um dia); preparar encontros regionais com formação básica (final de semana ou mais); estabelecer agenda para formação continuada (com os encontros). Nessa etapa é crucial o comprometimento de médio prazo: a agenda deve ser anual.
5) Novos coletivos de segurança
    Descrição: à medida que o tempo passa, fomentar a criação de novos grupos voltados para a segurança do momento de então com os valores tecnológicos, sociais e políticos voltados para a autonomia. (Não explicaremos aqui por que toda tecnologia ou cultura possui valores codificados em si.) É importante termos em mente que cultura de segurança e de organização são processos geracionais. Para que essa estratégia dê frutos, não podemos ficar reinventando a roda a cada novo coletivo.
    Realização: as próprias formações devem ter sido construídas sobre esses valores; pesquisas conjuntas
    Prazo: próximos 5 anos
6) Coletivo original vaza
    Descrição: larga o osso da segurança!
    Realização: Criação e manutenção de novas tecnologias de comunicação (inclusive, de infraestrutura); capacitação nessas novas tecnologias.
    Prazo: próximos 10 anos

CripTRA – CriptoFesta do Alto Tramandaí

 

No próximo sábado dia 15 de dezembro acontece a CriptoFesta do Alto Tramandaí em Maquiné – RS.

A programação completa já está no ar! São 15 atividades entre oficinas, palestras, bate-papos e muito mais divididos em 12h de programação.

O evento inicia com uma mesa redonda com o tema “Repressão e liberdade de expressão”, e segue com atividades sobre criptografia, análise de risco, cultura de segurança, software livre, redes,  e muito mais. Durante todo o dia voluntárias estarão disponíveis para auxiliar na instalação de Linux, LineageOS, Signal, criação de emails seguros, chaves PGP eentre outros! Traga seu dispositivo para libertá-lo das garras corporativas (mas não esqueça de fazer backup de seus arquivos importantes!).

Confira aqui a programação: www.criptra.noblogs.org/programacao/

Serviço:
CripTRA – CriptoFesta do Alto Tramandaí
15 de Dezembro 2018
09:00 às 22:00
Canto da Terra Armazém Café
Rua Luiz Alves da Costa, 715 – Maquiné / RS

Não entre em pânico, CRIPTOGRAFE!

 

CriptoFesta Sampa – 1º de dezembro de 2018

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Acontece amanhã a CriptoFesta Sampa, evento que busca disseminar boas práticas de comunicação digital com forte enfoque na segurança:

Muita calma nessa hora. Não começou hoje e não vai acabar amanhã. Cola junto com a gente e aprenda coisas básicas que você precisa saber para se comunicar com liberdade e segurança.

São 4 horas de oficinas e palestras sobre práticas, de nível básico e intermediário, para que você consiga se comunicar sem se preocupar.

Confira a programação completa em:
http://we.riseup.net/criptofestasbr/criptofestasampa

Serviço: