Quer ter uma ideia da sua localização: geoclue!

Sempre existem boas intenções por trás das escolhas feitas no projeto de um software, e o inferno está cheio delas também. Mas antes de entrar nos detalhes técnicos, vou contar uma história.

Era uma vez um bagre usando um notebook com Linux (na era digital, ninguém sabe que você é um bagre atrás da tela!). A distribuição linux que está rodando é o Debian, o mais livre dos softwares livres: por padrão, nada de código proprietário, como mp3 ou drivers de placa de vídeo ou impressora.

(A linguagem é incrível, né? Quando a gente diz ou escuta a palavra “livre” parece que o mundo faz sentido e a gente relaxa, pois tá tudo bem, nada vai te fazer mal.)

Eis que o bagre tá lá conversando com a galera pelo Tox, baixando filmes em bittorrent,  escrevendo num noblogs.org, subindo anonimamente um meme que ridiculariza o presidente. Tudo tranqx.

Como o bagre terminou de diagramar um zine que conta sua experiência numa okupa, ele quer imprimi-lo na impressora da galera, mas acabou o toner. Pesquisa as lojas da cidade (já que não está com as ferramentas para fazer a recarga em casa) e encontra um endereço central.

O bagre abre o gnome-maps, um navegador de mapas que usa o openstreetmap.org e já vem instalado no seu ambiente de trabalho Gnome. Antes de encontrar o local da loja, dá uma olhada naquele software que nunca tinha aberto. Tá bonito, simples, tem tudo. Aí, por curiosidade, o bagre clica num ícone estranho: uma folha de documento com uma ampulheta no canto inferior direito. O que será isso?

Depois de clicar, o mouse ficou em cima e a descrição do botão apareceu “vai para a localização atual”. Eita porra, disse o bagre, meio indignado com o espalhamento inadvertido da criptografia, que está afetando até os desenhinhos dos botões, mas também com curiosidade.

– Humm, tô usando uma VPN, disse o peixe. Onde será que esse mapa vai me jogar?

Ainda bem que o bagre estava sentado. O Gnome-maps indicou a sua localização com uma precisão de centímetros!

Acabou a historinha. Nesse momento, eu fiquei muito indignado. Como assim tem um software rodando no meu PC que consegue dizer EXATAMENTE onde eu estou? Só faltou aparecer desenhados os móveis da sala onde eu estava, o número do andar e a temperatura ambiente interna.

Lembra do poder das palavras? Pois é. Vou tentar descrever um pouco mais a minha situação para mostrar que, no final das contas, não havia nada de tão surpreendente assim. A única coisa que aconteceu foi que todo esse falatório sobre segurança digital dos últimos anos havia – mais uma vez – embotado minha capacidade de distinguir as coisas. Da mesma forma que a palavra “livre” mexe com o nosso bem estar, palavras como segurança, risco, criptografia, vírus, censura, democracia e o escambau também acabam se passando por engodo. A gente vê a sombra (do jeito que a gente quer) e não vê a coisa.

Primeiro, eu estava usando um linux, dos mais cricris, para não ter que quebrar tanto a cabeça lendo sobre softwares e bibliotecas maliciosas (tipo Ubuntu). Tá, então, nada de sacanagem embutida.

Segundo, eu tava acessando a Internet, e não apenas navegando na web, através de uma VPN. Claro, uma VPN mascara meu IP, só isso. Tudo aquilo que o meu computador pede para a rede global de computadores passa primeiro por um servidor lá na gringa para depois chegar ao seu destino. Isso faz com que localmente, aqui no brasil, meu provedor de internet (tipo, claro, oi, etc) só consegue ver que eu tô acessando esse servidor-lá-na-gringa mas não vê o que eu tô pedindo (seja um site, uma msg de chat, baixar um repositório git, etc.) Como a VPN é um intermediário, o serviço que eu estou requisitando não sabe que sou eu que estou fazendo o pedido, mas acha que é o servidor-lá-na-gringa.

Resumindo, meu endereço IP fica escondido do mundo lá fora, tirando a VPN com quem me conecto diretamente (ela tem que saber pra onde devolver a informação). Se eu tivesse usando o navegador Tor, a coisa seria mais ou menos (eu disse “mais ou menos) assim, só que com três intermediários em vez de apenas um e somente esconderia meu IP durante a navegação na web.

Terceiro, usar a internet a partir de um PC (de gabinete ou notebook) faz com que não seja possível a localização feita por GPS ou por triangulação de antenas de celular, como é o caso dos espertofones.

Então, como diabos foi possível dar, com tamanha precisão, minha localização?!

Procurei por mais detalhes do software gnome-maps. Descobri que ele usa uma biblioteca para fazer a localização chamada geoclue. Esse troço vem instalado por padrão no Debian, e em todas as distros que se baseiam nele, inclusive o Tails.

A página do geoclue diz o seguinte:

Geoclue is a D-Bus service that provides location information. The goal of the Geoclue project is to make creating location-aware applications as simple as possible.

(É uma biblioteca que fornece informações de localização. O objetivo do projeto é fazer com que a criação de softwares que usam localização seja o mais simples possível.)

Uma intenção legítima e cívica. E em seguida:

Geoclue é um software livre.

(e com essa frase a gente já fica tranquilo, como o cachorro do Pavlov.)

Para que tudo isso aconteça, a biblioteca “usa TODAS as fontes possíveis para melhor encontrar a geolocalização do usuário”. Eis então minha primeira surpresa de fato: a página enumera 5 fontes. Ip, sinal 3G e GPS do dispositivo, que são as mais óbvias, mas também:

  • GPS de outros dispositivos na mesma rede local
  • geolocalização dos roteadores WiFi (pontos de acesso)

QuÊ!?!@ Então eu me conecto num roteador e aquela caixinha tem um endereço fixo e único no mundo real? Como assim todos os roteadores do planeta possuem um endereço físico tipo coordenadas geográficas??

Tô passado!

A página do geoclue descreve também a precisão da localização de cada fonte: IP e 3G em quilômetros, WiFi em metros, GPS em centímetros.

Tá, então se cada ponto de acesso (roteador) tem um endereço, como que essa informação foi designada e quem armazena ela?

Segunda surpresa: quem coleta, designa, mantém e fornece a base de dados que o geoclue usa é a Fundação Mozilla através do mozilla location service. A página descreve o serviço da seguinte maneira:

The Mozilla Location Service (MLS) is an open service, which lets devices determine their location based on network infrastructure like Bluetooth beacons, cell towers and WiFi access points. This network based location service complements satellite based navigation systems like A-GPS.

(O MLS é um serviço aberto [palavra mágica!] que permite aos dispositivos determinarem sua localização com base nas infraestruturas de rede como repetidores de Bluetooth e pontos de acesso WiFi. O uso desses pontos da rede complementa os sistemas de navegação baseados em satélite como GPS)

Mais uma vez, muito boas intenções: assim podes melhor receber a previsão do tempo (que tem uma precisão de quilômetros!)  na exata lajota onde tais pisando agora. Ou alterar o fuso horário do teu computador quando tu mudas de país.

Terceira surpresa: a coleta e atualização de informações sobre os pontos de acesso (vulgarmente chamados de roteadores) WiFi é feita automaticamente e (olha a cara de pau!) caso tu não queiras fazer parte dessa base de dados tens que mudar ANTES o nome do teu ponto de acesso (SSID) acrescentando ao fim as letras “_nomap_” (sem mapa).

Primeiro de tudo: quem, no mundo, sabe que essa informação está sendo coletada? Segundo: quem sabe mudar o nome do ponto de acesso? Porra, o troço se aproveita da ignorância das pessoas da mesma forma que o facebook ou a CIA. E é tudo software livre de código aberto, fundação legal que financia projeto massa!!

A mozilla tem a decência de dizer, no seu FAQ, que não coleta os identificadores únicos dos pontos de acesso (BSSID ou MAC do aparelho), que é tipo um número de série.

E como ela descreve a base de dados de geolocalização dos pontos de acesso?

… [the] data contains personally identifiable information from both the users uploading data to us and from the owners of WiFi devices. We cannot publicly share this data without consent from those users.

(os dados contêm informações que podem identificar as pessoas, tanto aquelas que sobem dados para nós, quanto as donas dos WiFis. Não podemos compartilhar publicamente esses dados sem o consentimento delas.)

Na página de download temos mais detalhes da sua benevolência:

While we do not store any individual user token with the observation data, the data itself contains plenty of unique characteristics, locations and timestamps that would allow someone to track the movements of the people contributing observations to this service.

(Embora não armazenamos qualquer marcador individual nos dados de observação, em si os dados contêm um monte de características, localizações e informações de data e hora únicas que poderiam permitir que alguém rastreasse os movimentos das pessoas que contribuem com observações a esse serviço.)

Por favor, por favor!! Tão de sacanagem mesmo. Não é preciso consentimento para coletar, óbvio. A gente só fala de consentimento depois que se apoderou das informações pessoais de todo mundo. Mais um vez, isso por acaso não se parece com a google ou a NSA? Na verdade, nenhuma surpresa: a internet nunca deixou de ser usada para isso e só aprofundou a prática com o capitalismo de vigilância.

Lembra do escândalo do carro da google street view que coletava essas MESMAS informações? Aqui tem uma matéria em inglês. (Uma curiosidade: o cara responsável pelo google street view trabalhava num projeto da CIA chamado Keyhole, que acabou virando o GoogleEarth e depois desenvolveu o pokemonGo, outro escândalo de privacidade.)

Lá em 2007, esse tipo de coleta era um ataque à privacidade das pessoas. Dava processo, multa e queimava o filme da empresa na mídia. Hoje, já virou banal, “é assim que funciona mesmo”.

Pois é, mas quando Mozilla, Debian/Tails e outros projetos queridinhos do movimento de segurança digital saem por aí pisando na jaca da mesma forma que as empresas malvadas fizeram há 10 anos atrás (e que a CIA faz desde sempre), então a gente tem que ficar esperta e parar de repetir frases bonitas só porque criam fantasias bonitas.

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